Até
o matrimônio mais feliz está sujeito a crises, que precisam ser vistas
como um fenômeno de crescimento do amor conjugal e não como razão para a
separação. Um matrimônio cujos cônjuges jamais discordam é preocupante.
Será que eles são iguais em tudo ou uma personalidade está se
sobrepondo à outra, que por sua vez não se revela ao outro na sua
verdade? Uma passagem bíblica me faz lembrar os falsos relacionamentos,
aqueles que precisam amadurecer, e cujo crescimento é às vezes bem
doloroso: “Subirei contra um povo tranquilo e os tirarei de sua falsa
paz”. E há uma passagem nas Regras de Vida da Comunidade Shalom que,
acredito, completa o ciclo que vai da falsa à autêntica paz matrimonial:
“A verdadeira paz não vem dos homens, mas de Deus” (RVS, 355).
Dependendo de como será vivida, cada crise, mesmo a mais penosa, pode
levar ao aprofundamento do amor entre os esposos e ao fortalecimento
cada vez maior do matrimônio. Vamos refletir sobre isto?
Uma escolha livre
Antes de tudo, talvez seja preciso compreendermos que o matrimônio
não é “questão de sorte”, como alguns costumam dizer. Ele é fruto de uma
escolha livre que cada um fez. É verdade que há esposos que se
escolheram apressadamente e por razões pouco consistentes, mas nunca
podemos esquecer que, através do Sacramento do Matrimônio, Deus nos
concedeu uma graça da qual podemos lançar mão para que seja ratificada
esta escolha e “aumentada” a semente da afeição que um dia tivemos um
pelo outro. Esta semente, que nos moveu a subir ao altar, pode, pela
graça de Deus, desabrochar e crescer como uma grande árvore cheia de
frutos e frondosos galhos capazes de fazer sombra e “abrigar toda
espécie de pássaros”, como diz o Livro do Profeta Isaías.
Esta livre escolha não é uma “cruz” para se carregar pela vida como
um “fardo”. A cruz do matrimônio vem de fora, do demônio e do pecado dos
homens, como a cruz que Jesus um dia carregou por amor a nós. O nosso
esposo ou esposa jamais é a “nossa cruz”. O demônio bem que gostaria que
pensássemos assim… Mas se Jesus tivesse pensado assim nós nunca
poderíamos ser salvos. A cruz pode vir do pecado do outro, mas ela não é
o outro. O outro é uma bênção, um presente de Deus na minha vida; o
outro é um mistério, um desafio, o instrumento que eu preciso para
chegar a Deus, felicidade suprema!
Por isso, nos momentos de crise de nada adiantam as agressões, as
lamentações ou revanches. Também de nada adianta culpar a famosa
“incompatibilidade de gênios”, pois não existem pessoas absolutamente
iguais. Ao contrário de afastar, toda diferença pode ser ajustada, ao
ponto de nos fazer funcionar como rodas dentadas de uma máquina, cuja
força consiste justamente em se ajustarem nos pontos desiguais. Se
alcançarmos isto, viveremos um amor vitorioso sobre nossos pecados e
suas consequências, experimentaremos concretamente no matrimônio a
vitória de Cristo, e a verdadeira paz será alcançada.
A adaptação
Um longo matrimônio pode vir a atravessar muitas crises. Uma delas é a
crise na adaptação física e/ou psicológica, que pode surgir no início
do matrimônio e ser superada, entretanto pode ser camuflada por anos a
fio, até que um dia exploda tragicamente. Cada um dos esposos traz para o
matrimônio modelos às vezes muito fortes das relações entre os pais, de
sonhos que por muito tempo alimentaram sua imaginação, mas que não
correspondem à realidade. Pretender adaptar o outro a seus modelos ou
ressentir-se com ele por isto é grande prova de imaturidade, e razão
suficiente para orar sobre si mesmo ministrando a Palavra de Deus que
diz: “Eis, desta vez, o osso dos meus ossos e a carne da minha carne!…
Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe para ligar-se à sua mulher, e
se tornam uma só carne” (Gn 2,23.24).
As crises financeiras, pelas quais passam os cônjuges, podem afetar
seriamente a relação conjugal, se estes não buscarem em Deus a graça
para resistir às suas consequências, e conservar a unidade. Neste
momento, podem surgir acusações mútuas, sentimentos de inferioridade ou
superioridade, e a falta do dinheiro pode se tornar o “bode expiatório”
de ressentimentos antigos ou da preguiça de dialogar.
Às vezes pensamos que a infidelidade começa quando um dos parceiros
se entrega a uma “paixão”, mas ela pode começar bem antes, no coração,
quando começamos a nos fechar em nós mesmos, analisando os erros um do
outro e desnudando-o diante de terceiros. De nada adianta tal atitude
que, além de “envenenar” o relacionamento, pode nos colocar na mão de
falsos conselheiros, que infelizmente se alimentam e até se alegram em
aumentar a divisão entre os dois.
É claro que existem também aqueles que têm boa vontade em ajudar, mas
não conseguem ver que neste tipo de confidências apenas um dos dois
teve o direito de falar e na maioria das vezes trará somente suas
“razões”, pois não consegue ver as do outro. Ocorre-me um trecho do
Evangelho que nesse momento se encaixa com perfeição para prevenir os
arranhões diários que podem minar o amor dos esposos: “Por que reparas o
cisco que há no olho do irmão, e não vês a trave que está no teu?” (Mt
7,1-5).
Outra crise bem séria é a do envelhecimento das relações, a famosa
“perda da novidade”, que pode acabar em infidelidade. Esquecidos de que
todo ser humano será sempre um mistério e uma novidade, um ou ambos
podem projetar seu próprio tédio interior no rosto do outro, e achar que
vão reencontrar a alegria numa outra companhia. Não raro, depois de
algum tempo o cônjuge que buscou uma nova aventura acabará se
encontrando com seu próprio cansaço, e queira Deus que ainda haja como
retornar, pois já terá envolvido muitos outros na sua decisão
precipitada.
Permanecer fiel
O que leva um casal, que foi capaz de enfrentar tantos desafios
juntos, a desistir num momento que deveria ser o mais feliz e tranquilo
de sua relação? Este, que seria o período da colheita, o tempo mais rico
e precioso da vida conjugal, transforma-se tantas vezes em motivo de
descaso ou implicâncias mútuas. O medo do envelhecimento, da morte
corporal também pode gerar a falsa ilusão de que uma companhia mais
jovem pode lhe trazer de volta os anos “perdidos” ou retardar um tempo
tão precioso que é a terceira idade. Gostaria de colocar aqui o
pensamento de uma mulher que viveu bem todas as fases da sua vida e
certamente estava cheia de Deus quando o externou: “Acho que as diversas
etapas de nossa vida temos que vivê-las alegremente na graça do Senhor.
A velhice bem vivida é uma fonte de paz, já que temos passado a época
de maiores trabalhos, restando-nos aguardar a vinda do Senhor para
gozá-lo eternamente”.
Contudo, o trágico disso é que, seja qual for o motivo da crise, tem
ficado cada vez mais frequente a ideia de que o divórcio é a única
solução para o problema, de modo que cada um possa “ir para o seu lado”
como quem desfaz um acordo de negócios.
É claro que quando a violência física, psicológica ou moral torna um
dos cônjuges um perigo para a saúde do outro e dos filhos, a separação
pode ser o único meio de preservá-los, mas nunca podemos esquecer que
ela é incapaz de gerar a quebra do vínculo matrimonial, pois o divórcio
civil de nada adianta no plano religioso. Espiritualmente, ainda somos
responsáveis um pelo outro até o dia da sua morte. E mesmo que o outro
já não esteja disposto a uma reconciliação, será sempre digno do nosso
perdão, do nosso respeito, das nossas orações, porque Jesus mereceu isto
por ele na Cruz.
Por isso, ao invés de desistir no meio da luta, vale a pena
perseverar até o fim, ou, se por acaso ocorreu a separação, orar e
esperar com paciência, pois ainda pode ser que um dia Deus nos conceda a
graça de “casar pela segunda vez” com a mesma pessoa, o que será um
gesto humano extraordinário. Este segundo casamento, obviamente não
consiste nem requer repetição do rito matrimonial, nem o relacionamento
do casal será repetitivo, porque um homem e uma mulher renovados estão
ali, ainda mais lúcidos do que antes, dispostos a retomar sua unidade.
Mas seu “novo casamento” se beneficiará da experiência adquirida antes
para que o amor seja retomado onde houve a ruptura.
O Evangelho de São João narra que Jesus ressuscitado apareceu aos
seus discípulos reunidos e proclamou: “A paz esteja convosco”.
Vitorioso, cheio de poder, Cristo é a nossa paz, o Shalom do Pai, que
vem estabelecer entre nós a paz verdadeira, não baseada em nossos
desejos egoístas, nem em uma justiça meramente humana, nem na ausência
de diferenças, porque esta paz seria uma ilusão. Por isso precisamos
deixar que Ele pacifique a nossa confusão interior, a luta das nossas
paixões, nosso egoísmo, e transforme nosso orgulho e vaidade em mansidão
e humildade. O sacramento do Matrimônio traz consigo o remédio certo
para este amor que deve crescer sempre: A oração e a Eucaristia, que
trazem o Cristo vivo para dentro de nós, renovando estas graças e as
multiplicando dia após dia. Que Jesus, nossa paz, renove ainda hoje em
sua casa o amor familiar onde este necessitar ser renovado!
Bibliografia consultada:
Philippe, Marie-Dominique. No coração do Amor. São Paulo: Paulinas, 1997.
Regras de Vida da Comunidade Católica Shalom.
Ana Carla Bessa
Consagrada na Comunidade de Aliança Shalom
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