Há momentos na vida que nos convidam a
um exame de nossas atitudes, uma verificação interior sob o olhar de
Deus. Algo diferente do que costumamos fazer cada dia. Assim como alguém
que, ao longo de uma viagem, para por instantes, observa o percurso
andado, consulta o itinerário, julga o esforço despendido, avalia as
reservas, alonga a vista para o futuro.
Constatar a realidade é sempre útil. O
princípio de cada ano nos oferece uma oportunidade para examinar nossa
atuação no período que termina a aperfeiçoar a missão de discípulos de
Cristo e membros de uma Nação. Em dois campos essas reflexões são
necessárias: o civil e o religioso, pois somos cidadãos de duas Pátrias e
ambas estão intimamente relacionadas entre si. O critério básico,
entretanto, é um só, o Evangelho, e é a Ele que se deve recorrer como
parâmetro e como iluminador nos julgamentos e decisões.
Em nome de nossa Fé, a Igreja da qual
somos parte integrante, exige de nós, antes de tudo, apesar das
contingências humanas uma fidelidade inalterada. Essa interpretação se
bifurca embora de uma só fonte promanem os erros.
Há quem cultue o passado de modo
imobilista e os que só aspiram às novidades. Ambos ferem a comunhão
através da infidelidade aos designados pelo Salvador orientar o Povo de
Deus e aos quais os irmãos foram confiados. O Papa e os Bispos, estes
enquanto em união com ele, são, como expressão da Igreja, “a coluna e o
sustentáculo da verdade” (1Tm 3,15).
Nesse exame encontraremos vários óbices à
autenticidade no relacionamento civil e religioso. Um deles, com
profundas repercussões, é a oposição à Verdade. Esta virtude, marca
essencial do caráter bem formado, indispensável à prática religiosa e à
vida cívica, vê-se repetidas vezes repelida, ferida ou destruída.
Apela-se para o anonimato, mesmo com boas intenções, a fim de se
denunciar erros e até para ajudar a corrigi-los. Entretanto, a falta de
identificação reduz a nada um informe. Com razão há os que se negam a
tomar conhecimento de sua existência, pois é leitura vedada o que está
acobertado por uma falsa identidade.
O verdadeiro é o que está de acordo com a
realidade objetiva, e também pode ser definido como o encontro com o
Redentor, manifestado por nossa obediência à doutrina revelada. Os
fundamentos dessa virtude estão no próprio Deus. Cristo é a Verdade. A
pergunta um tanto cínica de Pilatos: “Que é a Verdade?” (Jo 18,38)
parece que se repete em muitos lábios cristãos. E a resposta foi muda,
mas de uma extraordinária eloquência e eficácia. Ela era Ele, ali
presente.
Ouve-se uma notícia e, antes de se
verificar sua veracidade, é logo transmitida a outrem, podendo-se com
isso ofender gravemente aos homens e ao Senhor. Por vezes, o mal é
disseminado dessa forma e é irreparável. Infelizmente, cada um de nós
pode confirmar a frequência dessa enfermidade moral.
Deturpa-se o fato ou elabora-se uma
intenção não existente para servir a interesses pessoais, de grupos e
ideologias. Hoje, a rapidez das comunicações amplia desmedidamente o
raio destruidor da mentira, do falso testemunho, da insinuação malévola.
Atribui-se, por vezes, inclusive à
Autoridade civil ou religiosa, ações ou objetivos absolutamente
inexistentes ou parcialmente verdadeiros. Neste caso, a meia verdade vai
além da simples calúnia, pois apresentando uma deformação de algo real,
fá-lo mais facilmente crível.
Impressiona a quantidade dessas e outras
manifestações de falta de caráter e espírito cristão. Profunda a
extensão desse mal e alto seu poder destruidor. Elas são praticadas até
por pessoas aparentemente boas e que se julgam tementes a Deus. Esquecem
que toda a vida espiritual se edifica em alicerces humanos, elevados à
ordem sobrenatural. Construir a piedade sem a base de um caráter ilibado
que se manifesta pelo amor à verdade, é fazê-lo sobre a areia. O
resultado nos é revelado por São Mateus (7,26-27): “E foi grande a sua
queda”.
O cristão, como parte do Corpo Místico
de Cristo, é destinado a “dar testemunho da verdade” (Jo 18,37) e a
estar permanentemente sob sua influência. Cada um de nós é cooperador da
Verdade. Somente assim alguém pode se considerar colaborador do
Evangelho.
Para cultivá-la exige-se um amor pelo
verdadeiro, pelo real, pelo objetivo, que põe acima dos interesses
pessoais julgamentos apressados, pruridos da língua e fraqueza na
prática da caridade. Exige-se ainda o apreço ao valor da Justiça e do
Bem comum. Sem a Verdade, a relação entre as criaturas se enfraquece e
toda uma série de obstáculos se antepõe à boa ordem na sociedade civil e
religiosa. Ela é o vínculo indispensável à união e ao entendimento que
todos almejamos.
O Pai dá sua graça. Nós devemos
responder com nosso esforço. Servir à Verdade pode significar
dificuldades e até graves sacrifícios. Seremos, entretanto, bem
recompensados pelo Senhor. Homens de hoje constroem assim o amanhã.
Dom Eugenio de Araujo Sales
Cardeal Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
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