É com este mesmo espírito de confiança que a Igreja celebra, no início
do mês de novembro, a Solenidade de todos os Santos, nossa vocação e
meta a ser alcançada, e a Comemoração de todos os Fiéis falecidos. Nossa
visita aos cemitérios, nos dias que se aproximam, pode ser uma bela
oportunidade para corajosa profissão de fé, quando estivermos diante nas
sepulturas, nas quais repousam apenas restos mortais dos nossos entes
queridos, com a certeza de que eles e elas já não se encontram ali,
pois, apenas soada a trombeta do Anjo da Morte, que os chamou,
apresentaram-se diante do Senhor, para dar contas da linda aventura da
vida terrena, entendida como um caminho para a eternidade, pois "está
determinado que os homens morram uma só vez, e depois vem o julgamento"
(Hb 9, 27).
A Igreja põe em nossa boca expressões altamente comprometedoras: "Creio
em Deus Pai, todo poderoso, Criador do céu e da terra e em Jesus Cristo
seu único filho, Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito
Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi
crucificado, morto e sepultado, desceu a mansão dos mortos, ressuscitou
ao terceiro dia, subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai,
todo poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no
Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na comunhão dos Santos, na
remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém".
Deus é Pai, pode tudo, é o Criador! O Universo não é obra do acaso, mas
pensado por Ele, desde a eternidade com inteligência e amor, finalizado
à plena realização de seus filhos e filhas. Seu poder não é despótico
ou autoritário, mas amoroso e harmônico, de modo que todas as criaturas,
voltando-se para Ele, encontram continuamente seu equilíbrio interior e
o justo relacionamento umas com as outras. Contemplar luz e escuridão,
sorriso ou choro, morte e vida, tudo encontra seu lugar quando se vê do
ângulo do último dia da criação, quando Ele mesmo se encantou com a obra
feita: tudo é muito bom! Acreditar em Deus Criador, saber que não
estamos jogados e perdidos! Quem começa com este risco da fé vislumbra o
sentido da existência!
O mundo não foi deixado ao léu, mas acompanhado e sustentado com amor
por quem o criou. Muitas vezes, na história que chamamos "da salvação",
Deus ofereceu aliança aos homens e mulheres. Sinalizou as veredas da
felicidade, enviou seus profetas, formou seu povo, como um pai que educa
seus filhos. Se tantas vezes não foram capazes de escutá-lo, seu amor
nunca esmoreceu. A plenitude dos tempos, com a maturidade da história
humana nesta terra, irrompeu como dom do amor de Deus, quando enviou seu
Filho amado, concebido pelo poder do Espírito Santo no ventre da Virgem
Maria. É tão bom e bonito viver nesta terra, que Deus quis assumir uma
carne como a nossa, desejou percorrer os mesmos caminhos de dores e
angústias, esperanças e alegrias, menos o pecado. E Jesus, filho amado,
foi até o mais profundo dos abismos da existência humana.
Tocou com suas mãos todas as etapas da vida humana, dos primeiros
vagidos de recém nascido até o grito do abandono, no alto da Cruz, para
que nenhum clamor fique sem sentido. Nele e por Ele, tudo encontra seu
rumo de passagem para a vida que não tem fim. Em sua morte nós fomos
resgatados, para ressuscitar com Ele. A dor da morte, que nos assombra
com ares de absurdo, na fé pode ser superada e já está superada, Só que é
necessário arriscar-se no salto da fé para entender esta estupenda
realidade! O Espírito Santo de Deus venha em auxílio de nossa fraqueza
para dizermos "creio".
Percorridas estas etapas altamente realizadoras para a existência
humana na terra, podemos proclamar a corresponsabilidade chamada
"Comunhão dos santos".
Ninguém caminha sozinho e tudo o que fazemos pode contribuir para o bem
dos outros! A própria sombra da morte pode ser iluminada pelo amor
mútuo, experimentado na presença solidária dos irmãos e irmãs. Apoio,
consolo, oração, gestos, tudo o que muitos velórios e enterros cristãos
já testemunharam. É uma das Obras de Misericórdia. E o Credo continua
com "Remissão dos pecados". Como Deus não nos fez para o pecado, e
cristão que se preze não se acomoda com o pecado, mas acredita que só em
Cristo e na força de sua Morte e Ressurreição se encontra o perdão, e
sabe ser destinado à salvação. Vale insistir na verdade a respeito do
encontro definitivo com o Senhor, quando a morte chegar. É honestidade
anunciar a uma pessoa que viveu seriamente o cristianismo que a "sua
hora" chegou, e convidá-la a preparar-se bem. Medo, ousadia,
precipitação? Nada disso! Realismo e certeza, esperança da salvação.
Uno-me a muitas pessoas que assim me ensinaram. Desejo abraçar a hora de
Deus, quando, onde e como chegar, como fruto de seu amor
misericordioso, que sabe quando estaremos prontos.
Somos destinados à ressurreição. Cristo ressuscitou de verdade e nos
garante que com Ele ressuscitaremos. "Creio na Ressurreição da carne". A
morte, a inevitável irmã morte corporal, como a chamou São Francisco de
Assis, é passagem, não a última e definitiva palavra. Desejamos uma
morte santa e feliz, desejamos ter mãos limpas e puro o coração quando
chegar a hora. Não é em vão que pedimos, na Ave Maria, que Nossa
Senhora, Mãe de Deus e nossa, rogue por nós agora e na hora de nossa
morte, os dois momentos de que temos certeza, de hoje até à eternidade.
E com o Credo chegamos à "Vida eterna". Nela acreditamos, como
cristãos, para ela caminhamos, almejamos os seus valores e sabemos que
começa agora. De fato, como se expressou o Senhor na Oração Sacerdotal,
"esta é a vida eterna: que conheçam a ti, o Deus único e verdadeiro, e a
Jesus Cristo, aquele que enviaste" (Jo 17, 3). Começa com a fé, adesão a
Jesus Cristo, como a qualidade de vida e santidade que Deus deseja para
todos e se prolongará para sempre.
Boa festa de todos os Santos para todos! Piedosa celebração de Finados e
uma excelente preparação para uma boa e santa morte, no dia marcado
pelo amor infinito de Deus por nós!
Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará
Assessor Eclesiástico da RCCBRASIL
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