Maconha, a erva, de pronto, me evoca duas expressões populares:
1) A grama do vizinho é sempre mais verde
Defensores da legalização do consumo e
venda baseiam-se em exemplos e experiências de outros países, embora não
raras vezes eles fecham os olhos para o fato de que o ícone legalize queridinho
dos maconheiros, a Holanda, hoje se arrepende de seu progressismo. Fato
igualmente não desprezível é a diferença cultural entre nós e eles.
Você pode achar que a grama do vizinho é mais bonita, mas é porque
provavelmente ele dispõe de mais recursos para tratá-la. Talvez você
sequer devesse tentar ter um gramado por enquanto…
2) Se mudar a cor da grama, o burro morre de fome
Percebo que há advogados da cannabis
avançando na argumentação, defendendo supostos benefícios terapêuticos.
Além de ser um viés controverso (dada, por exemplo, a existência de
drogas psiquiátricas já longamente desenvolvidas), evidentemente não é a
alegação principal que sustenta o movimento pela legalização. A
juventude que ora se encanta com os “arautos do tapinha” quer mesmo é
desafiar o sistema e salvaguardar seu prazer mas, claro, comprarão
qualquer bagulho barulho que lhes ajude a confrontar os
conservadores. Grande parte dos ideais da juventude – talvez em todas as
gerações – são formados por bandeiras bovinamente defendidas, sem
perspectiva, muitas vezes sem respaldo familiar, ou seja, sem a
aprovação dos pais e portanto desligados da própria educação e tradição
que receberam.
De dentro dessa nuvem escura, têm dificuldade de enxergar as implicações de uma tal medida irresponsável. Analiso alguns argumentos da discussão:
I) A ilegalidade da venda propicia a corrupção, pelo contrabando
Não é porque existe corrupção que deixa
abertas as fronteiras para o tráfico que legalizar vai acabar esse foco
de corrupção. Ter fronteiras vazadas, para contrabando de drogas, armas e
quaisquer outros produtos é um problema em si, que deve ser combatido
independentemente de que objetos passem ilegalmente.
II) Legalizar a venda geraria recursos para serem investidos em saúde, educação, etc
“Legalizar e usar impostos em educação”
não é factível. Primeiro porque aumentando o uso, aumenta o abuso e com
isso a demanda por tratamentos (sejam contra a dependência sejam
colaterais, de outros aspectos da saúde) logo, esses impostos teriam de
ir pra saúde – e não educação -, mas em caráter de socorro e não de
investimento. Segundo que o Brasil precisa de uso racional e honesto da
arrecadação que já faz, não estamos carentes de mais impostos, ou seja,
de mais dinheiro público captado.
III) Com a venda e o consumo liberados, a compra nas favelas vai ser reduzida e com isso a guerra do tráfico também
Quanto à “guerra das drogas”,
“aviõezinhos do tráfico” e demais efeitos sociais do tráfico, digo que o
problema não acabaria com um esgotamento da demanda pela droga comprada
dos traficantes.
Qual é a relação de causa e efeito traçada entre legalizar a venda de drogas e a redução dos conflitos nas favelas?
Legalizar a venda NÃO tem porque
provocar a queda da procura pelos usuários que hoje compram com
traficantes nem reduzir a violência. Alguns motivos para a minha
afirmação:
A) com regulamentação e taxação pelo
governo, os preços dos produtos “legais” seriam sempre mais elevados que
dos traficantes, até porque estes não estão sujeitos a agências
reguladoras, custos legais de logística, etc, e brasileiro adora
pechinchar e comprar de “camelôs”;
B) se o rendimento dos traficantes caísse (do que eu duvido), eles mudariam de “produto”, aumentando a atividade dos roubos “no asfalto”, por exemplo. Mas cumpre lembrar que restariam – se legalizada a maconha – as outras drogas, como o crack;
C) bandidos se confrotam por disputa de território, mas eles não apenas comercializam drogas.
B) se o rendimento dos traficantes caísse (do que eu duvido), eles mudariam de “produto”, aumentando a atividade dos roubos “no asfalto”, por exemplo. Mas cumpre lembrar que restariam – se legalizada a maconha – as outras drogas, como o crack;
C) bandidos se confrotam por disputa de território, mas eles não apenas comercializam drogas.
Aqui no estado do RJ tivemos a
comprovação da hipótese afirmada em B. Após os primeiros meses de
implantação das famosas UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) na
capital, que provocaram a migração dos bandidos para outros municípios,
registrou-se o aumento da criminalidade nessas localidades. De acordo
com dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, nos meses
de junho e julho de 2012, houve 160 apreensões de drogas em Niterói. No
mesmo período do ano de 2013 foram 256, um aumento de 62,5%. Em agosto
de 2012, aconteceram 28 homicídios, enquanto no mesmo período do ano de
2013 60 foram registrados, um aumento de mais de 100%.
(Fonte: http://www.atribunarj.com.br/noticia.php?id=11586&titulo=UPP%20EM%20NITER%D3I,%20POR%20QUE%20N%C3O?)
(Fonte: http://www.atribunarj.com.br/noticia.php?id=11586&titulo=UPP%20EM%20NITER%D3I,%20POR%20QUE%20N%C3O?)
Relatos dessa percepção são fáceis de encontrar na forma de reportagens sobre o assunto.
(Fonte: G1)
O poder do tráfico vai além da venda de
drogas, passa pelo poder que as armas proporcionam, domínio de
território (e seus habitantes), falta de educação cidadã, etc. Em suma:
não é a venda da drogas o que fascina crianças e jovens.
Maconheiros defendem ainda que não há
mal algum em se plantar a erva para consumo próprio e que isso tornaria
desnecessário comprar das mãos de traficantes. É uma falácia: o Estado
não pode arcar com o risco de usuários como esse tornarem-se novos
fornecedores. Aliás, admitir justificando que alguém que não pode
plantar compra de traficantes é praticamente uma confissão de coadunar
com o crime.
IV) A tendência da sociedade é modernizar-se e tornar-se mais liberal, despindo-se de preconceitos e conservadorismos atrasados
Cumpre combater a mentalidade de que
toda mudança é um avanço. Nem tudo que a sociedade chega a pensar ser
uma questão de liberdade corresponde a um anseio justo, benéfico e uma
evolução positiva. A abolição da escravatura, por exemplo, atendeu um
clamor pela liberdade e pela dignidade humana. Por outro lado, o que
alardeia-se hoje como “direitos reprodutivos”, “liberdade sobre o
próprio corpo”, nada tem de promotor da dignidade – muito pelo contrário
-tampouco, numa análise ponderada e abrangente representa um avanço
social. Outrossim, drogas como a maconha, longe de serem um mero artigo
comercializável (e seria plenamente dispensável como tal), são
indissociáveis do seu efeito, como diria minha mãe, bio-psico-social.
Tomo outro exemplo de expressão da
juventude, outro exemplo de costume marginal que ainda é um crime: a
pichação. É o artigo 65 da Lei 9605/98. É inegável que existem
grafiteiros, homens e mulheres com veia artística e bom gosto que podem
ser considerados profissionais dessa vertente de arte. Mas não é por
causa das belas peças que eles podem produzir dentro da legalidade, com permissão de alguém ou no mínimo sem ferir direitos alheios (comparo
com as instrumentalizadas pesquisas psiquiátricas e farmacológicas
empregando a cannabis) que a nossa sociedade passou ou passará a tolerar
depredação de propriedade privada ou de monumentos, a título de
modernização do consenso cultural (análogo aos “cultivadores para o
consumo próprio” ou consumidores de uma “maconha de farmácia”).
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