Não é raro que em escolas e outros ambientes se ofereçam os chamados
testes vocacionais, com os quais as habilidades são identificadas,
contribuindo para as novas gerações encontrarem seu lugar na sociedade.
Podem ajudar a descobrir os campos de atividade mais adequados às
capacidades de cada um e facilitar o acesso aos cursos adequados e à
posterior entrada no mercado de trabalho. Nem sempre as pessoas acertam
na escolha do curso a fazer e são muitas aquelas que, em virtude de um
concurso feito, dependentes dos salários que recebem, permanecem longos
anos em ambientes inadequados aos seus próprios dons. Todos nós
almejamos um mundo em que as pessoas se integrem bem e sejam felizes, no
lugar certo, com sua dignidade reconhecida e possibilidades de
desenvolvimento de todas as suas potencialidades. O sonho pode parecer
distante, mas não podemos desejar menos do que uma sociedade livre e
igualitária, com oportunidades oferecidas a todos. Daí a importância a
ser dada a todos os instrumentos técnicos e pedagógicos que nos
aproximem de tal ideal. Acrescente-se a isso o esforço a ser empreendido
para multiplicar os postos de trabalho destinados às novas gerações.
No entanto, é outra a compreensão da ideia cristã de vocação. Os testes
vocacionais e outros recursos podem conduzir à profissão e à realização
das capacidades, mas vocação tem a ver com vida cristã e experiência
religiosa, o que pode conduzir à escolha de um estado de vida e
disponibilidade para o serviço do próximo por causa de uma realidade que
supera as atividades cotidianas ou o trabalho a ser realizado. Vocação
exige dois polos. De um lado, Deus que cria, chama e ama. A outra parte é
de cada pessoa humana, que precisa aprender a discernir os sinais da
vontade de Deus e responder com coragem.
O ponto de partida está na família, convidada, através do Sacramento
que a constitui, o matrimônio, a criar um ambiente adequado ao trato
pessoal com Deus. Tudo começa no ato gerador do amor conjugal, com o
qual uma vida tem início, com a colaboração dos pais, conscientes de
que, ao conceberem uma criança, Deus cria uma alma chamada a viver por
toda a eternidade (Cf. Encíclica Humani Generis, do papa Pio XII, número
36). Há um relacionamento pessoal e direto de amor entre Deus e cada
pessoa humana, no qual o Senhor mantém a plena liberdade com a qual
fomos criados e ao mesmo tempo provoca positivamente uma resposta de
cada homem e de cada mulher, em vista da felicidade a que somos
destinados. Deus não é fruto de nossa imaginação ou criatividade, mas
nos precede como Senhor e Criador. Ele vem na frente! Nós é que somos
suas criaturas!
A vida de oração na família cria as condições para que as crianças,
tendo recebido de presente a inserção no Corpo de Cristo, na graça do
Batismo, venham a responder a uma pergunta fundamental: "O que Deus quer
de mim?" Não é suficiente ensinar os filhos a desenvolverem suas
capacidades e descobrirem como ser importantes ou ganhar dinheiro na
sociedade. Uma pessoa não chegou à sua plena realização quando faltou a
experiência de Deus e a resposta a este amor pessoal. O nome de Deus e o
amor a Ele sejam sagrados em cada casa. A família evangeliza e lança as
sementes das vocações cristãs autênticas quando dentro dela se respiram
os valores evangélicos verdadeiros, traduzidos em gestos e palavras tão
simples, como pedir um favor, agradecer, dar espaço aos outros, o
perdão, a gentileza, a polidez no trato. Para cultivar este ambiente, a
família seja o espaço da iniciação à vida paroquial. Criança que vai à
Missa com os pais tem futuro na vida cristã! Participação familiar na
Santa Missa é Pastoral Vocacional!
Depois, a Igreja, seus Sacramentos, seus Ministros, sua história, tudo
venha a ser valorizado e respeitado na família! O cultivo do ambiente
vocacional continua com a inserção na catequese e nos grupos paroquiais,
segundo as idades das crianças, adolescentes e jovens. Ali se ampliam
os horizontes, outras pessoas são conhecidas. Nas Paróquias e
Comunidades, faça parte do esforço pastoral a orientação vocacional e o
reconhecimento das diversas vocações e estados de vida, nos quais o amor
de Deus é acolhido e respondido com generosidade. Todas as vocações
sejam consideradas importantes e nenhuma preterida nas Paróquias. Além
disso, seja valorizada a figura dos orientadores vocacionais. Leigos e
Leigas, Religiosos e Religiosas, assim como os sacerdotes, estes na
magnífica tarefa do Sacramento da Penitência e da Direção Espiritual,
são agentes imprescindíveis para uma cultura vocacional a ser
desenvolvida na Igreja.
As grandes vocações eclesiais a serem cultivadas são o Matrimônio, o
Sacerdócio, a Vida Religiosa e Missionária, a Dedicação a Deus nas
Comunidades Novas, a Virgindade Consagrada nas Igrejas Particulares e
outras formas de compromisso pessoal com o Senhor. Há lugar e
oportunidade para todos e ninguém pense não ter uma vocação. Todos, sem
exceção, têm um olhar pessoal de Deus a ser realizado na Igreja. E somos
ainda convidados a retornar ao argumento inicial, a profissão e a
vocação. Um dia, perguntei a um jardineiro o que estava atrás da beleza
de seu trabalho. Respondeu-me com simplicidade que era apenas o amor com
que suas mãos realizavam as tarefas. Apenas! E encontro homens e
mulheres de tantas outras profissões que as realizam com inigualável
unção! Capacidades humanas foram elevadas a uma sacralidade
impressionante. Tive inúmeros contatos com médicos, para dar um exemplo,
que se deixam conduzir pelo Espírito Santo em suas delicadas tarefas. A
diferença está lá dentro da pessoa, que pode ser apenas um profissional
frio ou se deixar conduzir pela graça de Deus. Acontece então um
encontro maravilhoso entre a iniciativa do Senhor, que nos leva em
conta, e as capacidades humanas, cuja fonte se encontra também nele. A
Ele a honra, o louvor e a glória, para sempre.
Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará
Assessor Eclesiástico da RCCBRASIL
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