O futebol e a Igreja
Atualmente,
quando se pensa na relação entre Igreja e futebol, alguns remetem ao
Papa Francisco, conhecido amante do esporte, que ainda é sócio-torcedor
de seu time, o San Lorenzo da Argentina, e já fez em suas intervenções
várias analogias da fé cristã e da postura humana com o esporte bretão.
Como quando ele disse que para resolver os problemas da vida é preciso
encarar a realidade prontos, como o goleiro de um time de futebol, a
impedir a entrada da bola de onde quer que ela chegue (Homilia de 13 de
abril de 2013).
Mas
a relação entre Igreja e futebol é muito mais antiga e estreita do que
muita gente imagina, inclusive muitos dos apaixonados por este esporte.
Em um livro chamado Visão de Jogo: primórdios do futebol no Brasil o
historiador José Moraes dos Santos Neto aborda como o futebol se
iniciou no Brasil, com vasta documentação (fotos, atas, documentos
escolares, diários de alunos e professores). No estado de São Paulo, por
exemplo, de 1879 a 1881, os jesuítas do Colégio São Luís da
cidade de Itu, interior de São Paulo, visitaram grandes colégios na
Europa a fim de conhecer experiências interessantes para introduzir
práticas esportivas em seus colégios, “para que todos os músculos
funcionassem harmoniosamente, enquanto as lições morais do espírito
esportivo seriam absorvidos por meio de jogos divertidos e recreativos”
(p. 14).
Na
França , estiveram no Colégio de Vannes, onde já era praticado o
futebol, e lá fizeram contato com o padre Du Lac, grande defensor da
introdução do futebol inglês nas escolas. A seu ver, o futebol reunia
virilidade e moral na medida certa, formando jovens saudáveis e bons
cidadãos.
Na
Inglaterra, aceitando uma recomendação do padre, os jesuítas de Itu
conheceram o futebol jogado na Harrow School. Depois foram à Alemanha,
onde os educadores utilizavam o esporte em paralelo à ginástica alemã. É
importante notar que, em várias regiões da Europa, também haviam sido
os jesuítas os pioneiros na introdução do futebol, como fora o caso do
Colégio Jesuíta de Utrech, núcleo disseminador desse esporte na Holanda.
De
volta ao Brasil, os jesuítas introduziram o futebol em seus colégios.
Enxergavam no esporte bretão uma ferramenta de apoio pedagógico. Já em
1894, o novo reitor do colégio foi o padre Luís Yabar, conhecedor
profundo da história e das regras do esporte. A partir daí, o futebol
deixou de ser uma brincadeira e a prática do esporte se tornou mais
organizada. Os jesuítas inclusive estabeleceram o título simbólico de
craque de futebol para o aluno que mais se destacasse durante as
partidas.
Em
1895, o ganhador foi o aluno Arthur Ravache, que dois anos depois
começaria sua atuação como um dos pioneiros do futebol nacional.Vários
ex-alunos do São Luís o levaram para o interior paulista e a capital,
depois para Uberaba e o Brasil Central, assim como para o Nordeste,
especialmente para a Bahia.
E
Charles Miller, considerado o “pai do futebol brasileiro”? Seu papel
foi ter iniciado, em 1894, sua prática em um clube. O esporte saiu dos
colégios e assumiu um caráter explicitamente competitivo – o que tornou o
conhecimento de suas regras mais difundido. Mas o futebol já era
praticado em vários colégios brasileiros, a maioria deles dirigida pelos
jesuítas.
O caráter integrador da Copa do Mundo
Um
aspecto importante que o futebol traz – e a razão inicial dos jesuítas
terem-no introduzido no Brasil – é a sua proposta original de reunir as
pessoas. Também esta é a proposta da Copa do Mundo: integrar todos os povos.
Em nosso país, durante o Mundial, é uma das poucas ocasiões em que as
pessoas se sentem pertencentes a um povo, com uma identidade clara e um
orgulho do país. Uma manifestação interessante disso e que certamente
veremos em nossos estádios é, em jogos do Brasil, a torcida brasileira
cantar com força e firmeza o hino nacional completo, a capela, mesmo
depois de a música ser interrompida por conta do protocolo da Fifa.
O
futebol, além disso, pode sempre ser vivido como um espaço para
encontros, laços de solidariedade e de admiração pelas virtudes do
outro. São João Paulo II dizia que “o sentido da fraternidade, a
magnanimidade, a honestidade e o respeito pelo corpo, virtudes sem
dúvida indispensáveis a todo bom atleta, contribuem para a edificação de
uma sociedade civil, onde o antagonismo é substituído pela
competição, onde ao confronto se prefere o encontro e, à contraposição
rancorosa, o confronto leal. Desta forma, o esporte não é um
fim, mas um meio; pode tornar-se veículo de civilização e de genuíno
entretenimento, estimulando a pessoa a dar o melhor de si e a evitar o
que pode ser perigoso ou de grave prejuízo para si ou para o próximo”
(Discurso aos participantes no Encontro Internacional do Jubileu dos
Esportistas, 2000).
Ao
receber, no começo de maio, dois times italianos que disputariam a final
da Copa da Itália, Papa Francisco lembrou: “Quando garoto, eu costumava
ir bastante ao estádio, eu tenho lembranças felizes. Foram momentos
alegres, nos domingos, com minha família. Espero que o futebol e o
esporte em geral retome esta noção de celebração”.
Mas
é evidente que essa Copa não traz apenas as experiências positivas.
Como bem reconheceu São João Paulo II no mesmo Jubileu dos Esportistas,
“(…) ao lado de um esporte que persegue ideais nobres, há outro que só
recorre ao lucro; ao lado de um esporte que une, há outro que divide”.
Os problemas
Não
podemos deixar de lado o custo e a maneira como foi conduzida a
organização do Mundial. Das 41 obras de infraestrutura listadas nas 12
cidades-sedes da Copa – o legado prometido que o Mundial traria ao país –
apenas cinco foram concluídas até meados de maio, pelo menos sete não
ficariam prontas de jeito nenhum (Documento Oficial Matriz de
Responsabilidade da Copa). Fica a sensação de que o país está perdendo
uma oportunidade de avançar nesse aspecto.
Além
disso, as obras de todos os estádios nas 12 cidades-sedes tiveram custo
estimado de R$ 8,9 bi, 97% de verbas públicas (o valor e a porcentagem
foram obtidos do último relatório do Comitê Organizador Local, de março
de 2014). Além disso, há estádios que correm o risco de se transformarem
nos chamados “elefantes-brancos”: em localidades que não contam com
clubes de tradição no futebol brasileiro, sem torcida suficiente para
lotar a capacidade das instalações. São investimentos fora de propósito e
distantes das prioridades do povo que correm pelo ralo. No fundo,
visou-se muito mais a possibilidade de ganhos políticos, e não a
racionalidade econômica do investimento.
Infelizmente se percebe como o
futebol muitas vezes é instrumentalizado para fins políticos e abusos
econômicos vão se tornando cada vez mais conhecidos.
Sobre
isso, Papa Francisco afirmou no começo de maio: “Futebol é um grande
negócio agora por causa da publicidade, televisão, etc. Mas o fator
econômico não deve prevalecer sobre o esportivo, porque assim corre-se o
risco de contaminar tudo”.
A
consequência desses problemas é que parcelas da sociedade se frustram
por identificar as ações do governo ao organizar o Mundial não como
investimentos que geram retornos econômicos e sociais no futuro, senão
como gastos mal planejados que tiram recursos que deveriam ser
utilizados na educação, na saúde, no transporte, na habitação, na
segurança…
Possibilidades de se viver o futebol
De
toda forma, é um alento verificar que um grupo grande de pessoas não
tolera mais o mal uso do dinheiro público e uma postura política
dominante cada vez mais distante da sociedade, que não serve ao país,
mas se serve dele.
Isso
significa que ao contrário do que muita gente diz, o futebol pode sim
ser vivido de uma forma não alienante. Dois fatos recentes, em especial,
nos chamam atenção para isso.
Em
primeiro lugar, a sociedade brasileira tem demonstrado sua insatisfação
por meio das manifestações contra o planejamento mal feito pelo governo
– em todas as suas esferas – e pela má utilização do dinheiro público
na organização da Copa. Mesmo que muitas manifestações
carreguem o lema “Não vai ter Copa”, pode-se perceber muitas pessoas que
se manifestam não contra o evento em si, mas contra como ele está sendo
organizado. Por isso, mesmo quem gosta muito de futebol muitas vezes
apoia esses protestos – bem diferente das imagens que muitas vezes se
faz de que os amantes desse esporte são ingênuos ou despreocupados com
as questões sociais.
Outro
fato de como o futebol pode ser vivido de maneira não alienante é a
reação da sociedade no tema do racismo. Nos últimos cinco meses,
profissionais do futebol brasileiro foram vítimas do crime: Tinga, do
Cruzeiro, Arouca, do Santos, Marino, do São Bernardo, Assis, do
Uberlândia, além do árbitro gaúcho Márcio Chagas da Silva. Outro caso
que chamou muita atenção, no final de abril, foi o de Daniel Alves, do
Barcelona e da seleção brasileira, que pegou a banana atirada contra ele
durante uma partida válida pelo campeonato espanhol e a comeu. Seu
gesto rapidamente se espalhou pelas redes sociais e uma campanha contra o
racismo ganhou o apoio de milhares de torcedores de todo o mundo, em
especial dos brasileiros, que publicavam suas fotos comendo uma banana –
inclusive vários artistas entraram na campanha. As reações contra o
racismo são uma mostra de que os torcedores se dão conta da dignidade
que toda pessoa possui, independente da cor da pele.
Concluindo
Podemos viver o futebol e a Copa do Mundo de duas maneiras.
Uma delas é reduzir a Copa do Mundo a apenas os seus problemas.
É evidente, e dissemos isso, que há questões sociais urgentes que
merecem a devida atenção e luta por melhorias. É evidente que o dinheiro
público deveria ter outras prioridades. É inadmissível que não olhemos
para isso. O “padrão-fifa”, que nos últimos tempos adquiriu o
significado de qualidade, deve estar presente em todos os serviços para a
sociedade.
A
outra postura é partir da hipótese positiva, porque só assim somos
capazes de olhar para todos os fatores em jogo – quando partirmos da
hipótese negativa, só enxergamos aquilo que já queremos enxergar e não
colhemos muitos outros dados que a realidade nos diz. É preciso usar a
razão de maneira adequada, encarando os fatores negativos e positivos,
sem jogar nada fora. É preciso ter o olhar de Adélia Prado, que em
entrevista ao Estado de S. Paulo (06/12/2013) quando perguntada em que
momento a realidade cotidiana se mostra como maravilhamento e em que
momento não passa de mera realidade, afirmou: “Quando olho a
pedra e vejo pedra mesmo, só estou vendo a aparência. Quando a pedra me
põe confusa de estranhamento e beleza, eu a estou vendo em sua realidade
que nunca é apenas física. A aparência diz pouco”.
Quer
dizer: todos os problemas políticos, sociais e econômicos que a
organização da Copa do Mundo trouxe ao longo desses anos e são
justamente criticados machucam o amante desse esporte. Mas a experiência
da Copa traz coisas boas também. É por isso que ele também pode trazer
inúmeras alegrias.
O
torcedor de futebol é como qualquer pessoa: quer ver brilho, quer ver
talento, quer ver improviso, quer ver invenção. Sem a centelha do
imprevisível, sem aquele drible genial, sem o gol de placa, nada feito. O
torcedor de futebol quer encontrar quem está do seu lado e torcer junto
com ele ou mesmo tirar um sarro sadio do adversário. O torcedor de
futebol quer compartilhar com o outro suas alegrias e tristezas. O
torcedor de futebol vive de momentos de bem e de beleza. E que muitos
deles possam acontecer na Copa do Mundo!
(Texto de Rafael Marcoccia, Fonte: Revista Passos, revista internacional de Comunhão e Libertação)
Nenhum comentário:
Postar um comentário