Confira artigo de Emmir Nogueira , escrito logo após a canonização em 2004, sobre o testemunho dessa mãe:
Diante da recente canonização de Gianna Beretta, algumas pessoas me
abordaram perguntando como os quatro filhos de Santa Gianna rezavam para
ela. Será que diriam:
“Santa Mamãe, rogai por nós!”?
Claro que achei engraçadíssimo, mas logo depois, fiquei a meditar como deve ser fantástico ter uma mãe canonizada ainda com os filhos em vida. Foi com este pensamento no coração que deparei com a seguinte carta de Gianna, já grávida de dez semanas e sabedora de seu câncer no útero, a seus três “tesouros”, como ela e seu esposo chamavam seus filhos e um ao outro. Na carta, um de seus primeiros testemunhos de fé, de coragem, de caridade, de respeito à vida que não lhe pertence:
Meus caríssimos tesouros,
Papai lhes levará milhões de grandes beijões; desejaria muito ir com ele, mas tenho de ficar de cama, pois estou um pouco dodói.
Comportem-se bem, obedeçam a Mariuccia e a Savina. Perluigi, que é o
mais velho, brigue com suas duas irmãzinhas sem implicar. Mariolina, que
é “a maior”, seja boa e complacente com Lauretta.
Trago vocês no coração e penso em vocês a cada momento. Rezem uma Ave
Maria por mim, assim Nossa Senhorinha me fará ficar boa logo e poderei
retornar a Courmayeur para abraçar vocês e ficarmos sempre juntos.
Com todo afeto, beijos e abraços,
Mamãe
Com todo afeto, beijos e abraços,
Mamãe
“Que crianças de sorte estes Pierluiggi Maria e Laura!”, dizemos
hoje. “Terem uma mãe tão afetuosa e, além de tudo, santa, canonizada!!!”
É verdade! No entanto, não consigo deixar de pensar o que diríamos se
víssemos no jornal uma manchete assim: “MAE DECIDE NÃO INTERROMPER A
GRAVIDEZ APESAR DE CÂNCER UTERINO”.
E, abaixo, a reportagem: “Apesar de ser médica e conhecedora do risco
de morte em levar adiante uma gravidez apenas iniciada diante de um
quadro de câncer uterino, a Dra. Gianna Beretta Molla insiste em não
interromper a gestação de seu quarto filho. Entrevistados, seus médicos
se isentam de toda a responsabilidade sobre a vida da paciente, que
fizeram assinar termo de responsabilidade, etc…”
Será que, diante de tal manchete, nossa expressão: “crianças de
sorte” não seria substituída por “Que mulher irresponsável! Deixar sem
mãe quatro crianças! Tem que pensar nos filhos! No marido!” É muito
possível que esta segunda exclamação aflorasse, impensada, aos nossos
lábios ou corações acostumados com o superficial, viciados na mania de
cuidar de tudo, de ter tudo sob o nosso próprio controle, inclusive a
nossa vida e a dos outros, ainda que sejam “apenas” embriões.
No entanto, felizmente, ainda tem gente com têmpera de santo, como o
casal que me procurou no dia 17 de maio, um dia após a canonização de
Gianna Humildes e sofridos, esperaram a tarde inteira na recepção.
Queriam oração. Ela está com câncer e no terceiro mês de gravidez, como
Gianna. Como ela, foi aconselhada pelos médicos a abortar, palavra
escondida pelos profissionais sob o eufemismo de “interromper a
gravidez”. Felizmente, como a santa, ela e seu esposo optaram pela vida,
pela verdade, pela santidade. Enfrentaram os médicos e decidiram levar a
termo a gravidez, mesmo tendo pouco tempo de caminhada, mesmo tendo
sido evangelizados há pouco, mesmo ainda conhecendo pouco, a nível de
informação, a doutrina e a moral. Friso “a nível de informação” porque, a
nível de coração, os dois “dão quinal” em muito teólogo moral com seus
muitos anos de estudos.
A mãezinha, na conversa, disse que não tinha forças, que não tinha
fé. Contei-lhe, então, como sempre dá certo tomar emprestada a fé de
Maria. Enquanto orávamos, observava os dois reunirem todas as suas
forças e toda a sua fé diante do sacrário, olhava o ventre ainda pouco
crescido da mãezinha, a testa franzida do papai e, entregando-os a
Gianna, pensava em nossa imensa responsabilidade de anunciar a verdade
do Evangelho e formar segundo o que pensa Jesus, mantendo-nos firmes
diante do que diz o mundo.
Pensava, sobretudo, o quanto era feliz aquela criança e o quanto é
provável que, como Gianna Emmanuella, a caçula dos Molla, ela diga, com
toda razão, desde já: “Santo papai, santa mamãe, rogai por mim, rogai
por nós!”
Emmir Nogueira
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