O lado positivo todos conhecem e repetem
aos quatro ventos. A mulher é mais independente, não precisa ser
submissa ao marido, os gays gozam de mais direitos e liberdade, muitos
tabus acerca do sexo foram derrubados, etc. O problema é que a
geração da década de 1960 prometeu mundos e fundos com toda essa
libertação sexual que simplesmente não se concretizaram. Ao menos não para muita gente, principalmente nas camadas sociais mais baixas.
Sou da tese de que o pêndulo exagerou.
Da era vitoriana mais repressora chegamos ao paraíso dos libertinos,
onde “vale tudo” e quase não existem mais tabus para serem derrubados (à
exceção, talvez, do incesto e da pedofilia, sendo que há controvérsias
sobre o último). Por isso considero o livro importante para o debate
sobre valores morais, ainda que não concorde com tudo.
A autora parece crer que não é
irreversível o que aconteceu, e que seria viável recolocar o gênio na
garrafa. Não só discordo disso, como não acho que seria tão desejável
assim regressar aos tempos anteriores à pílula. Há conquistas reais. O
que não nos impede, como já mencionei, de olhar e encarar o lado negro
da coisa. Ele também existe.
Para Eberstadt, a situação é análoga ao
ambiente ideológico da Guerra Fria. O fracasso comunista era um fato
empírico, estava diante de todos que quisessem enxergar, mas ainda assim
muitos, especialmente os “sofisticados” da elite, adotaram postura
neutra quando não endossaram o regime. Ao menos o anti-anticomunismo foi
muito forte: era coisa de reacionário condenar tal ideologia
responsável pela desgraça de milhões de pessoas.
Havia uma vontade deliberada de
desacreditar nas evidências do retumbante fracasso comunista. Para a
autora, o mesmo ocorre hoje, só que com a revolução sexual.
Inúmeros dados empíricos e pesquisas apontam para problemas graves
provenientes da revolução sexual, mas a maioria insiste em ignorá-los ou
fingir que não estão, de forma alguma, atrelados ao fenômeno em si.
Indicadores como taxas crescentes de
divórcio, doenças sexualmente transmissíveis, consumo de drogas da
juventude, casos de estupro, abortos etc., mostram que algo saiu pela
tangente nessa promessa de paraíso após a libertação sexual. Estudos
mostram, ainda, que as crianças, principalmente de baixa renda, são as
que mais sofrem com esse cenário: apresentam menor probabilidade de
desempenho positivo em várias medidas de qualidade de vida.
Eis algumas coisas que estudos e
pesquisas demonstram estatisticamente: mulheres cujos maridos são os
chefes de família (provedores) tendem a ser mais felizes do que outras
mulheres; homens casados tendem a trabalhar e ganhar mais do que homens
solteiros; promiscuidade na juventude parece estar fortemente
relacionada ao fracasso educacional e problemas como uso de drogas e
álcool; crianças (principalmente meninas) cujas mães são divorciadas ou
solteiras têm maior probabilidade de sofrer abuso sexual em casa do que
crianças com os pais biológicos casados; etc.
Tudo isso afeta, evidentemente, de forma
desigual por faixa de renda. A revolução sexual costuma ser muito
celebrada entre as pessoas mais “sofisticadas” da elite, mas seu custo
maior recai sobre os mais pobres. Charles Murray mostrou bem isso em seu
livro Coming Apart, e Theodore Dalrymple tem sido um autor incansável
no esforço de expor a realidade nada glamourosa da vida nas comunidades
pobres nos tempos modernos.
A outra vítima maior da revolução sexual, além das crianças, são as próprias mulheres.
Quem precisa conviver com o aborto e ficar deprimida depois são elas;
quem sofre o maior impacto financeiro no divórcio são elas; quem precisa
normalmente educar os filhos quando o parceiro vai embora são elas;
etc. Tudo isso, não custa repetir, tende a se agravar bastante quando
falamos de comunidades mais pobres, onde a mãe solteira não desfruta de
um exército de babás e empregadas para ajudá-la, não é, enfim, uma
Madonna ou Jane Fonda da vida.
Outro efeito da revolução sexual é o que passou a ser chamado de “adultescência”:
adultos cada vez mais agindo como adolescentes. A modernidade vendeu a
ideia de que era possível praticar sexo livre à vontade sem pagar preço
algum por isso. Os homens celebraram, claro. Muitos deles,
porém, viram-se incapazes de sair da eterna adolescência, de assumir
maior responsabilidade por suas vidas e de seus dependentes.
A explosão da pornografia é outro
corolário disso. A autora faz uma curiosa, mas interessante analogia
entre o tabaco na década de 1950 e a pornografia hoje. Os papeis se
inverteram por completo. Havia um estigma moral que condenava a
pornografia naquela época, enquanto o cigarro era amplamente aceito como
a coisa mais natural do mundo, consumido em tudo que é lugar. Hoje
ocorre o oposto: fumar é moralmente condenável, enquanto todos assumem
que a pornografia é parte normal do cotidiano das pessoas, e que ninguém
tem nada com isso.
Pesquisas e pareceres médicos, porém, mostram que
há correlação entre o consumo crescente de pornografia e a perda de
libido em relação a mulheres reais, quase sempre a própria esposa.
Maridos desinteressados nas suas mulheres e esposas frustradas que
fogem para o chocolate levam ao aumento da taxa de divórcio, que por sua
vez afeta negativamente as crianças e as mulheres.
Viciados em pornografia existem em
quantidade cada vez maior. Homens românticos, em quantidade cada vez
menor. Esse seria o paradoxo do mundo pós-moderno: hoje é mais fácil do
que nunca conseguir sexo (o que tem oferta abundante costuma ter baixo
valor de mercado), mas o contrário parece ser verdade para o romance.
Talvez este seja o enigma central para os homens e mulheres modernos:
desejo por romance em uma época de fartura sexual.
O filósofo Roger Scruton, na mesma direção, apontou
para o risco real da pornografia: aqueles que se tornam viciados nessa
forma de sexo sem risco correm o risco da perda do amor, em um mundo
onde somente o amor traz a felicidade genuína. Aqueles que
substituíram todos os propósitos mais elevados pelo sexo hedonista
invariavelmente encontraram apenas um grande vazio existencial: seres
humanos não são como os porcos selvagens.
Ironicamente, a farta literatura sobre o
assunto mostra que as feministas, líderes da revolução sexual, são as
mais insatisfeitas com seus resultados práticos. Livros abundam sobre o
sofrimento feminino na modernidade, sobre o descontentamento com o sexo,
a reclamação de homens que não prestam e não tratam mais as mulheres
com dignidade, etc. Em muitos casos, o subúrbio é retratado como um
campo de concentração, os homens como estupradores, as crianças como um
fardo intolerável e o feto como um parasita. Não há nada parecido do
lado masculino.
Em resumo, a revolução sexual
inegavelmente reduziu os laços familiares, enfraqueceu a própria
instituição do casamento, e como vários estudos demonstram, tais laços
são importantes para indicadores sociais e para a qualidade de vida das
crianças. Isso faz com que o assunto não seja, portanto, apenas
individual, e sim do interesse de toda a sociedade.
O livro termina mostrando que há
movimentos de reação, principalmente por parte dos mais jovens, das
vítimas dessa libertação sexual excessiva ou inconseqüente, aqueles que
pagam justamente o preço dos lares destroçados. Uma espécie de Geração X
Conservadora começa a surgir em alguns lugares, valorizando aquilo que
seus pais não valorizavam mais: a família tradicional.
Ninguém sabe o que vai acontecer daqui
para frente. Mas uma coisa parece inegável: a revolução sexual está
longe de ter apenas um lado positivo, ou de ter entregado as promessas
de felicidade feitas na década de 1960. Olhar abertamente para o lado
negativo, portanto, é crucial para que excessos sejam podados e males
sejam evitados. Há um elefante na sala e todos fingem que ele não
existe. Passou da hora de falar sobre ele…
Autor: Rodrigo Constantino
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