As amizades e os namoros devem ser marcados pelo autêntico desejo de uma auto construção positiva, no respeito recíproco, no domínio de si, na dedicação a deveres assumidos com seriedade e responsabilidade. São ocasiões de crescimento verdadeiro.
O deterioramento de certos casamentos pode ter como causa o desgaste.
E por que este amor esfriou e acabou? Por faltarem bases sólidas. O
amor, durante o tempo do namoro, foi superficial, muito apegado aos
prazeres e às facilidades. Faltou a renúncia, a oblatividade. Talvez
tenha sido marcado pela incapacidade de sofrer e dar a vida pela pessoa
amada. Sem o espírito altruísta, sem a gratuidade que se consolida no
sacrifício e na renúncia, o amor não se sustenta.
Quem pode garantir que haverá fidelidade nas tribulações, nas crises
matrimoniais, nas doenças, nas dificuldades econômicas, nos desafios do
controle de natalidade responsável, da gestação e da criação dos filhos,
nas tentações de outros amores que prometem e parecem resolver todos os
problemas? Os noivos, na liturgia do matrimônio, prometem ser fiéis um
ao outro “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-se e
respeitando-se todos os dias da própria vida”. Estas promessas não serão
cumpridas quando o amor é hedonista, egoísta, superficial, sem nenhuma
capacidade de abraçar renúncias e sofrimentos. A intimidade – tantas
vezes entendida como acesso ao corpo do outro – “acontece quando um
indivíduo é capaz de equilibrar o dar e o receber e pode buscar
satisfazer mais o outro do que simplesmente buscar a auto-satisfação e o
sucesso”[1].
Relacionamentos superficiais e instrumentalizadores da pessoa do
outro em proveito próprio (do próprio prazer) podem gerar frustrações,
desconfianças e medo de viver um relacionamento profundo e verdadeiro.
É bem verdade que um desejo de manifestar fisicamente o amor, o afeto
profundo, é natural e compreensível. Mas quando assume conotações
claramente sexuais (através de carícias que induzem ao uso da
genitalidade) esse relacionamento queima etapas e assume atitudes que
são próprias do matrimônio enquanto convívio estável na manifestação de
um amor esponsal sacramentalizado com finalidades unitivas (o bem dos
cônjuges) e procriativas (abertura à geração de filhos), formando assim
uma família.
Se o amor humano, na sua expressividade sexual-genital e demais
dimensões, foi elevado à dimensão de sacramento, então significa que o
uso da sexualidade-genitalidade antes do matrimônio não manifesta só a
ausência de um rito, mas a ausência da Igreja e, por conseguinte, de
Cristo[2].
Na intimidade sexual, e também nas demais expressões da união
matrimonial, Deus se serve da mediação dos esposos para manifestar o seu
amor. Deus ama o esposo através da esposa e a esposa através do esposo.
E quem introduz Cristo e sua graça no convívio estável de uma vida a
dois entre um homem e uma mulher é exatamente o sacramento do
matrimônio. Por isso, seria banalizar o matrimônio todo reducionismo da
sexualidade ao prazer genital ou destituir tal prazer da necessidade de
uma inclusão integrada na esfera do amor a dois elevado à dignidade de
sacramento.
Bem nos ensina o prof. Felipe Aquino: “A vida sexual de um casal não
pode começar de qualquer jeito, às vezes dentro de um carro numa rua
escura, ou mesmo num motel, que é um antro de prostituição. (…). O
namoro é tempo de conhecer o coração do outro, não o seu corpo; é tempo
de explorar a sua alma, não o seu físico. (…). Espere a hora do
casamento, e então você poderá viver a vida sexual por muitos anos e com
a consciência em paz, certo de que você não vai complicar a sua vida, a
da sua namorada, e nem mesmo a da criança inocente”[3].
A partir disso, a pessoa estrategicamente vai evitando tudo o que de
alguma maneira pode excitá-la ou agitá-la sexualmente, tendo sempre em
vista um bem maior. Assim, namorados e noivos evitarão carícias
exageradas, uma vez que isso levará a certos movimentos hormonais e
psíquicos que direcionarão a uma busca de prazer, culminando no uso da
genitalidade. Se, por exemplo, o encontro dos namorados é em lugar
isolado e esta solidão constitui a possibilidade de certas liberdades,
seria bom passar a namorar em lugar mais iluminado e freqüentado por
outras pessoas. Bom seria dialogar mais, algumas vezes rezar juntos etc.
Um namoro autêntico não se esgota nas manifestações afetivas de ordem
física. O importante é usar de sinceridade consigo mesmo e com Deus. O
senso da medida, a prudência e a temperança, o bom senso e o
discernimento evangélico vão abrindo os caminhos para namoros e noivados
santos e maduros. Quem aprendeu a se controlar e a viver estas
saudáveis renúncias agora, se capacitará para viver as renúncias que lhe
serão exigidas no matrimônio.
Além disso, o auxílio divino é sempre indispensável. “Tu me ordenas a continência: concede-me o que ordenas, e ordena o que quiseres”[4].
Rezar e viver a amizade com o Senhor ajuda a entender que, mesmo
existindo elementos de ordem biológica e psíquica ou mesmo influências
de ordem sociocultural, existem também forças espirituais que atuam
nesse contexto. Não nos iludamos, nossa luta não é apenas “contra a
carne e o sangue, mas contra os principados e potestades, contra os
dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos
espalhados pelos ares” (Ef 6,12). Poderíamos até considerar ingenuidade o
fato de tantas pessoas atribuírem somente à esfera bio-psíquica uma
realidade que também comporta um acirrado combate espiritual!
Diz o apóstolo que “Deus não nos chamou à impureza, mas à santidade”
(1Ts 4,7), e para tanto ele exorta: “Mortificai, pois, os vossos membros
terrenos: fornicação, impureza, paixão, desejos maus, e a cupidez, que é
idolatria” (Cl 3,5).
O próprio Mestre Divino aborda o assunto afirmando essa necessidade:
“Por isso, se o teu olho direito é para ti ocasião de queda, arranca-o e
lança-o para longe de ti, porque é melhor para ti que se perca um dos
teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado na geena. E, se tua
mão direita é para ti causa de queda, corta-a e lança-a para longe de
ti, porque é melhor para ti que se perca um dos teus membros do que todo
o teu corpo seja lançado na geena” (Mt 5,29-30).
Note-se, porém, que este arrancar não deve ser entendido no sentido
literal, pois tudo o que Deus colocou no corpo humano tem uma finalidade
boa, um sentido positivo, válido e significativo: “Deus viu tudo o que
tinha feito; e era muito bom” (Gn 1,31). Todas as pessoas, tanto os
celibatários quanto os casados, precisam tomar consciência que os órgãos
sexuais continuam sendo sagrados e fazem parte do grande tabernáculo do
Espírito Santo que é corpo humano e integram a dignidade da pessoa
humana. Portanto, o sentido do cortar, arrancar, lançar fora não diz
respeito ao anular, destruir ou sufocar, mas envolve um direcionamento
que leve a integrar, direcionar, sublimar numa dinâmica positiva de
abertura ao querer de Deus.
Para que este processo atinja níveis de bom êxito na vivência da castidade, vai ser muito útil que a vontade seja sadiamente exercitada, iluminada por uma consciência bem esclarecida; eis a importância dos estudos, da reflexão da Escritura e, sobretudo, da intimidade com Deus na oração.
O Senhor também diz que o “olho é a lâmpada do corpo. Se o teu olho
for são, todo o teu corpo terá luz. Mas se o teu olho for defeituoso,
todo o teu corpo estará em trevas” (Mt 6,22-23). Portanto, se a
inteligência e a vontade do homem forem obscurecidas e corrompidas pelo
apego aos bens passageiros da terra ou pelas paixões ou apetites
desordenados, toda a vida espiritual da pessoa ficará comprometida e
corrompida pelo vício e como que lançada na escuridão, sem possibilidade
de discernir o bem do mal e apreciar as coisas retamente.
À luz desta indicação que o Senhor nos oferece, importa abraçar com
generosidade uma vida de sacrifício. É tolice imaginar que terá domínio e
controle sereno de seus impulsos sexuais quem se expõe às ocasiões,
quem tem vida mole, folgada, vive no conforto, na preguiça, no
espontaneísmo, na falta de disciplina pessoal.
Os casais de namorados e noivos, bem como cada indivíduo, busquem
trabalhar-se corajosamente, encontrar soluções e não desistir de
conduzir livremente a própria vida exercendo um decidido senhorio sobre
seus impulsos, tendo por base os valores evangélicos e o equilíbrio
afetivo.
A felicidade é também uma conquista que brota do autodomínio. A
Igreja nos instrui que o domínio de si mesmo “é um trabalho a longo
prazo. Nunca deve ser considerado definitivamente adquirido. Supõe um
esforço a ser retomado em todas as idades da vida” (Cat, 2342). A quem
sinceramente se empenhar para atingir este bem-aventurado autodomínio,
não faltará o auxílio generoso e abundante da graça divina. Vale a pena
conferir!
Pe. Marcos Chagas
Form 2008
[1] LIDZ, T. La Persona Umana. Suo sviluppo attraverso il ciclo della vita. Roma: Astrolabio, 1971, p. 380.
[2] Cf. GATTI, G. Morale sessuale, educazione dell’amore. Leumann (Torino): Elle Di Ci, 1988, p. 143.
[3] AQUINO, F. Jovem, levanta-te! Lorena: Cléofas, 2001, p. 99.
[4] S. AGOSTINHO, Confissões, livro 10, n. 40.
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