O caso Galileu é comumente
utilizado para afirmar que a Igreja Católica é inimiga do progresso
científico. Por tanto, chama-me a atenção que diversos católicos,
inclusive sacerdotes, religiosos e outras pessoas que têm conhecimento
teológico, conheçam esse caso de um modo bastante superficial e, por
vezes, equivocado.
Há alguns anos, estava em Roma
ministrando um curso de doutorado. Em uma aula falei sobre o caso
Galileu. Ao concluir, um sacerdote que estava trabalhando em sua tese de
doutorado veio falar comigo. Estava muito contrariado e me dizia: “como
é possível que eu, sacerdote católico, que passei anos em um Seminário e
agora trabalho em minha tese de doutorado em Roma, soube apenas hoje
que a Inquisição não matou Galileu?” Tinha toda razão em se sentir
desnorteado. Visto que tenho experiências semelhantes com certa
frequência, decidi escrever este artigo, no qual pretendo resumir,
brevemente, os aspectos centrais do caso Galileu: o que sabemos com
segurança que aconteceu ou não aconteceu, quais temas continuam sendo
discutidos, qual é, definitivamente, o estado atual da questão em seus
pontos principais.
As causas da ignorância e confusão
existentes em torno ao caso Galileu é um tema que mereceria ser
estudado. Em parte pode ser devido ao uso demasiado partidarista que
muitas vezes se fez neste caso: alguns, desejando atacar a
Igreja, acentuaram excessivamente o que lhes interessava ou deformaram
os fatos, e outros, ao defender a Igreja, por vezes utilizaram-se de uma
apologética demasiado fácil, desconhecendo a complexidade do caso. Atualmente, há muitos estudos rigorosos sobre Galileu, de modo que é possível estabelecer com objetividade o que sabemos e o que desconhecemos.
A Igreja católica mostrou, por meio do seu representante maior, o Papa,
um desejo claro de esclarecer o tema, e não encontrou inconveniente em
reconhecer, sem paliativos, os erros que os seus representantes puderam
cometer com Galileu, pedindo inclusive perdão por eles. Parece que
estamos em um bom momento para propor um resumo desapaixonado do famoso
caso.
1. Como morreu Galileu?
O primeiro ponto que deveria ficar claro
é que a Inquisição não matou a Galileu, nem a ninguém. Morreu de morte
natural. Galileu nasceu na terça-feira, 15 de fevereiro de 1564 em Pisa,
e morreu na quarta-feira, 8 de janeiro de 1642, em sua casa, uma vila
em Arcetri nas imediações de Florença. Portanto quando morreu tinha
quase 78 anos (é possível encontrar uma diferença de um ano inclusive em
documentos oficiais, porque então, em Florença, os anos começavam a
contar em 25 de março, data da Encarnação do Senhor). Conta Vicenzo
Viviani, um jovem discípulo de Galileu que permaneceu continuamente
junto a ele nos últimos trinta meses, que sua saúde estava muito
debilitada: tinha uma grave artrite desde os 30 anos e a isto se unia
uma irritação constante e quase insuportável nas pálpebras e outros
achaques que traz consigo uma idade tão avançada, sobretudo quando
consumida em muito estudo e vigília.
Acrescenta que, apesar de tudo, seguia
cheio de projetos de trabalho, até que por fim lhe assaltou uma febre
que o foi consumindo lentamente e uma forte palpitação, com a qual ao
longo de dois meses foi se extenuando cada vez mais, e por fim, uma
quarta-feira, 8 de janeiro de 1642, às quatro horas da manhã, morreu com
firmeza filosófica e cristã, aos setenta e sete anos de idade, dez
meses e vinte dias. Portanto, não existiu a fogueira nem nada parecido.
Tampouco foi condenado à morte. O único
processo em que foi condenado ocorreu em 1633, e ali foi condenado à
prisão que em vista de suas boas disposições, foi comutada imediatamente
por prisão domiciliar, de modo que nunca chegou a ingressar em um
cárcere. durante o processo deveria ter estado na prisão da Inquisição,
segundo as normas comuns, mas de fato nunca esteve lá: antes de começar o
processo se alojou na embaixada de Toscana em Roma, situada no Palazzo
Firenze, onde vivia o embaixador; durante o processo foi exigido em
alguns momentos que se alojasse no edifício da Inquisição, mas então lhe
habilitaram umas estâncias que estavam reservada para os eclesiásticos
que trabalhavam ali, permitindo que lhe levassem comida da embaixada
Toscana; e ao acabar o processo foi permitido que estivesse alojado na
Vila Médici, uma das melhores vilas de Roma, com esplêndidos jardins,
propriedade do Grande Duque de Toscana. Tudo isto se explica porque
Galileu era oficialmente o primeiro matemático e filósofo do Grande
Duque de Toscana, território importante (inclui Florença, Pisa, Livorno,
Siena, etc.) e tradicionalmente bem relacionado com a Santa Sé, e as
autoridades de Toscana exerceram bons ofícios para que em Roma Galileu
fosse tratado o melhor possível, como de fato sucedeu. O embaixador de
Toscana, Francesco Niccolini, apreciava muitíssimo a Galileu, e colocou
todos os meios para que sofresse o menos possível com o processo, e para
que não fosse preso. Niccolini conseguiu que, ao fim do processo, a
pena de prisão que se impôs fosse comutada por confinamento na Vila
Médici. Depois de poucos dias foi permitido que se trasladasse a Siena,
onde se alojou no palácio do arcebispo, monsenhor Ascanio Piccolomini;
este era um grande admirador e amigo de Galileu, e o tratou
esplendidamente durante os vários meses em que esteve em sua casa, de
modo que ali se recuperou do trauma que sem dúvida, supôs o processo (em
1633, quando ocorreu o processo, Galileu tinha 69 anos). Depois, foi
permitido que se trasladasse à casa que tinha fora de Florença, e ali
permaneceu até a morte, já velho, de morte natural. Acabou sua obra mais
importante, e a publicou, em 1638, depois do processo.
Definitivamente, Galileu não foi
condenado à morte, mas a uma prisão que não chegou a se executar porque
foi comutada: primeiro, por uma estância de vários dias na Vila Médici,
em Roma; depois, por uma estância de vários meses no palácio de seu
amigo arcebispo de Siena; e a continuação (fins de 1633), foi-lhe
permitido residir, em uma espécie de prisão domiciliar, em sua própria
casa, na Vila do Gioiello, em Arcetri, nas imediações de Florença, onde
viveu e trabalhou até sua morte.
Galileu nunca foi submetido a tortura ou
a maus tratos físicos. Sem dúvida, fazê-lo ir a Roma vindo de Florença
para ser julgado, tendo 69 anos, supõe mau trato, e o mesmo se pode
dizer da tensão psicológica que teve de suportar durante o processo e na
condenação final, seguida de uma abjuração forçada. É certo. Desde o
ponto de vista psicológico, com a repercussão que isto pode ter na
saúde, Galileu teve que sofrer por estes motivos e, de fato, quando
chegou a Siena depois do processo, se encontrava em más condições. Mas é
igualmente certo que não foi nenhum objeto dos maus tratos físicos
típicos da época. Algum autor afirmou que, durante o processo, ao final,
em uma ocasião, foi submetido a tortura; entretanto, autores de todas
as tendências estão de acordo, com praticamente unanimidade, que isto
realmente não aconteceu. Na fase conclusiva do processo, em uma ocasião,
encontra-se uma ameaça de tortura por parte do tribunal, mas todos os
dados disponíveis estão a favor de que se tratou de pura formalidade
que, devido aos regulamentos da Inquisição, o tribunal devia mencionar,
mas sem intenção de levá-la à prática e sem que, de fato, fosse
realizada (consta, além disso, que em Roma não se praticava a tortura
com pessoas da idade de Galileu). Depois da condenação, em Siena,
Galileu se recuperou. Logo sofreu diversas doenças, mas eram as mesmas
que já sofria habitualmente desde muitos anos antes e que foram se
agravando com a idade. Chegou a ficar completamente cego, mas nada teve a
ver com o processo.
2. Porque Galileu foi condenado?
O que mais chama a atenção não são os
maus tratos físicos que como acabamos de ver, não existiram, mas o fato
em si mesmo de que Galileu foi condenado, com as tensões e sofrimentos
que isto implica. Desde logo, não era homicida, nem ladrão, nem
malfeitor em nenhum sentido habitual da palavra. Então, porque foi
condenado? Qual foi a condenação?
Costuma-se falar de dois processos
contra Galileu: o primeiro em 1616, e o segundo em 1633. Às vezes só se
fala do segundo. O motivo é simples: o primeiro processo realmente
existiu, porque Galileu foi denunciado à Inquisição romana e o processo
foi adiante, mas Galileu não chegou a ser convocado diante do tribunal: o
denunciado se inteirou de que existia a denúncia e o processo através
de comentários de outras pessoas, mas o tribunal nunca lhe disse nada,
nem o convocou, nem o condenou. Por isso com frequência não se considera
que se tratou de um autêntico processo, ainda que de fato a causa se
abriu e se desenvolveram algumas diligências processuais durante meses.
Ao contrário, o de 1633 foi um processo a toda regra: Galileu foi
intimado a comparecer diante do tribunal da Inquisição de Roma, teve que
se apresentar e declarar diante desse tribunal, e finalmente foi
condenado. Tratam-se de dois processos muito diferentes, separados por
muitos anos; mas estão relacionados, porque o que aconteceu no de 1616
condicionou em grande parte o que aconteceu em 1633.
2.1. O processo de 1616
Em 1616 Galileu era acusado de postular o
sistema heliocêntrico proposto na Antiguidade pelos pitagóricos e na
época moderna por Copérnico: afirmava que a Terra não está quieta no
centro do mundo, como geralmente se acreditava, mas que gira sobre si
mesma e ao redor do Sol, da mesma forma que os outros planetas do
Sistema Solar. Isto parecia ir contra textos da Bíblia onde se diz que a
Terra está quieta e o Sol se move, de acordo com a experiência; além
disso, a Tradição da Igreja assim havia interpretado a Bíblia durante
séculos, e o Concílio de Trento havia insistido em que os católicos não
deveriam admitir interpretações da Bíblia que se afastassem das
interpretações unânimes dos Santos Padres.
Os acontecimentos de 1616 acabaram com
dois atos extrajudiciais. Por um lado, publicou-se um decreto da
Congregação do Index, datado de 5 de março de 1616, pelo qual se
incluíram no índice de livros proibidos três livros: Sobre as revoluções
do cônego polaco Nicolau Copérnico, publicado em 1543, onde se expunha a
teoria heliocêntrica de modo científico; um comentário do agostiniano
espanhol Diego de Zúñiga, publicado em Toledo em 1584 e em Roma em 1591,
onde se interpretava alguma passagem da Bíblia de acordo com o
copernicanismo; e um opúsculo do carmelita italiano Paolo Foscarini,
publicado em 1615, onde defendia-se que o sistema de Copérnico não está
contra a Sagrada Escritura. Ficava afetado pelas mesmas censuras
qualquer outro livro que ensinasse as mesmas doutrinas. O motivo que se
dava no decreto para essas censuras era de que a doutrina que defende
que a Terra se move e o Sol está em repouso é falsa e completamente
contrária à Sagrada Escritura. Por outro lado, Galileu foi admoestado
pessoalmente para que abandonasse a teoria heliocêntrica e se abstivesse
de defendê-la.
O opúsculo de Foscarini foi proibido
absolutamente. Ao contrário, os livros de Copérnico e de Zúñiga somente
foram suspendidos até que se corrigissem algumas passagens. No caso de
Zúñiga, o que deveria se modificar era muito breve. No caso de Copérnico
tratavam-se de diversas passagens onde deveria explicar que o
heliocentrismo não era uma teoria verdadeira, mas só um artifício útil
para os cálculos astronômicos. De fato, essas correções foram preparadas
e aprovadas ao fim de quatro anos, em 1620.
Podemos nos perguntar por que se dava
tanta importância a algo que, hoje em dia, parece simples: quando a
Bíblia fala de questões científicas, com frequência adota o modo de
falar próprio da cultura, da época ou simplesmente da experiência
ordinária. De fato este foi um dos argumentos que Galileu utilizou em
sua Carta a Benedetto Castelli, que circulou em cópias à mão (Castelli
era um beneditino, amigo e discípulo de Galileu, professor de matemática
na Universidade de Pisa), e com maior extensão em sua Carta à Grande
Duquesa de Toscana, Cristina de Lorena (mãe daquele que naqueles
momentos era Grande Duque de Toscana, Cosme II), a quem havia chegado
ecos das acusações bíblicas contra Galileu.
Para compreender o fundo do assunto
deve-se mencionar três problemas. Em primeiro lugar, Galileu tinha se
tornado célebre com seus descobrimentos astronômicos de 1609-1610.
Utilizando o telescópio que ele mesmo contribuiu de modo decisivo para
aperfeiçoar, descobriu que a Lua possui irregularidades como a Terra,
que ao redor de Júpiter giram quatro satélites, que Vênus apresenta
fases como a Lua, que na superfície do Sol existem manchas que mudam de
lugar, e que existem muito mais estrelas do que as que se veem a olho
nu. Galileu se baseou nestes descobrimentos para criticar a física
aristotélica e apoiar o heliocentrismo copernicano. Os professores
aristotélicos, que eram muitos e poderosos, sentiam que os argumentos de
Galileu contradiziam sua ciência, e às vezes passavam ridículo. Estes
professores atacaram seriamente a Galileu e, quando acabavam-se as
respostas, alguns recorreram aos argumentos teológicos (a pretendida
contradição entre Copérnico e a Bíblia).
Em segundo lugar, a Igreja católica era
naqueles momentos especialmente sensível para com aqueles que
interpretavam por sua conta a Bíblia, afastando-se da Tradição, porque o
enfrentamento com o protestantismo era muito forte. Galileu se defendeu
de quem dizia que o heliocentrismo era contrário à Bíblia explicando
por que não era, mas com isto se fazia de teólogo, o que era considerado
então como algo perigoso, sobretudo quando, como neste caso, se
afastava das interpretações tradicionais. Galileu argumentou bem como
teólogo, sublinhando que a Bíblia não pretende nos ensinar ciência e se
acomoda aos conhecimentos de cada momento, e inclusive mostrou que na
Tradição da Igreja se encontravam precedentes que permitiam utilizar
argumentos como os que ele propunha. Mas, em uma época de fortes
polêmicas teológicas entre católicos e protestantes, estava muito mal
visto que um profano pretendesse dar lições aos teólogos, propondo
algumas novidades um tanto estranhas.
Em terceiro lugar, a cosmovisão
tradicional, que colocava a Terra no centro do mundo, parecia estar de
acordo com a experiência ordinária: vemos que se movem o Sol, a Lua, os
planetas e as estrelas; ao invés, se a Terra se movesse, deveriam
suceder coisas que não sucedem: projeteis atirados para cima cairiam
atrás, não se sabe como estariam as nuvens unidas à Terra sem ficar
também atrás, se deveria notar um movimento tão rápido.
Além disso, essa cosmovisão tradicional
parecia muito mais coerente com a perspectiva cristã de um mundo criado
para o homem, e também com a Encarnação e a Redenção da humanidade
através de Jesus; de fato, entre aqueles que haviam aceitado as ideias
de Copérnico contava-se Giordano Bruno, que defendeu que existem muitos
mundos habitados e acabou sustentando doutrinas mais ou menos heréticas
(Bruno foi queimado, como consequência de sua condenação pela Inquisição
romana, em 1600, ainda que deve-se sublinhar, não como desculpa mas
para maior claridade, que não era propriamente um cientista, ainda que
utilizasse o copernicanismo como ponto de partida).
Os acontecimentos de 1616 culminaram em
um decreto da Congregação do Índex, datado de 5 de março de 1616, pelo
qual foram proibidos os livros mencionados, com os matizes já apontados.
O decreto foi publicado em nome da Congregação, e está assinado pelo
cardeal prefeito e pelo secretário da Congregação, não pelo Papa. Desde
então, um ato desse tipo era feito com o mandato ou aprovação do Papa e,
de algum modo, comprometia a autoridade do Papa, mas de nenhuma maneira
pode ser considerado como um ato que põe em jogo a infalibilidade do
Papa: por uma parte, porque nem está assinado pelo Papa e nem mesmo o
menciona; por outra, porque trata-se de um ato de governo de uma
Congregação, não de um ato de magistério; e além disso, porque não
pretende definir uma doutrina de modo definitivo. Isso era perfeitamente
sabido então, como agora; como prova disso pode-se mencionar uma carta
de Benedetto Castelli a Galileu, escrita em 2 de outubro de 1632, quando
já tinha sido ordenado a Galileu que comparecesse perante a Inquisição
de Roma. Castelli falou com o Padre Comissário do Santo Ofício, Vincenzo
Maculano, e defendeu a ortodoxia da posição de Copérnico e de Galileu,
acrescentando que várias vezes falou de tudo isso com teólogos piedosos e
muito inteligentes, e não viram nenhuma dificuldade; acrescenta que o
próprio Maculano lhe disse que concordava e que, em sua opinião, a
questão não deveria se resolver recorrendo à Sagrada Escritura. É fácil
advertir que estas opiniões, tratadas no próprio Comissário do Santo
Ofício, não teriam sentido se o decreto do índex de 1616 pudesse ser
interpretado como tendo um alcance de magistério infalível ou
definitivo.
Nas deliberações da Santa Sede, prévias
ao decreto, foram pedidas as opiniões de onze consultores do Santo
Ofício, que relataram, em 24 de fevereiro de 1616, que dizer que o Sol
está parado no centro do universo é absurdo em filosofia e além disso
formalmente herético, porque contradiz muitos lugares da Escritura tal
como expõe os Santos Padres e os teólogos, e dizer que a Terra se move é
também um absurdo em filosofia e ao menos errôneo na fé. Com frequência
é tomada esta opinião dos teólogos consultores como se fosse ditame da
autoridade da Igreja, mas não é: foi somente a opinião dessas pessoas. O
único ato público da autoridade da Igreja foi o decreto da Congregação
do Índex, e nesse decreto não é dito que a doutrina heliocêntrica seja
herética: é dito que é falsa e que se opõe à Sagrada Escritura. O matiz é
importante, e qualquer entendido em teologia o sabia então e o sabe
agora. Ninguém considerou, então, nem deveria considerar agora, que o
heliocentrismo foi condenado como heresia, porque não é certo. Isto
explica que Galileu e outras pessoas igualmente católicas continuaram
aceitando o heliocentrismo; Galileu sabia (e estava certo) que ele havia
mostrado, em suas cartas a Castelli e a Cristina Lorena, que o
heliocentrismo podia ser compatível com a Sagrada Escritura, utilizando
princípios que não eram novos, mas que tinham apoio na tradição da
Igreja.
A decisão da autoridade da Igreja em
1616 foi equivocada, ainda que não tenha qualificado o heliocentrismo
como heresia. Galileu e seus amigos eclesiásticos se propuseram a
conseguir que este decreto fosse revogado. Poderiam ter conseguido:
trata-se de um decreto disciplinar que ainda que fosse acompanhado por
um valor doutrinal, não condenava o heliocentrismo como heresia, nem era
um ato de magistério infalível.
Outro aspecto importante a levar em
conta é que, ainda que as críticas de Galileu à posição tradicional
estavam fundamentadas, nem ele nem ninguém possuíam naqueles momentos
argumentos para demonstrar que a Terra se move ao redor do Sol. Esta
afirmação parecia mais absurda, tal como a qualificação dos teólogos do
Santo Ofício. Em uma famosa carta, o cardeal Roberto Belarmino, um dos
teólogos mais influentes então, pedia tanto a Foscarini como a Galileu
que utilizassem o heliocentrismo somente como um hipótese astronômica,
sem pretender que fosse verdadeira nem entrar em argumentos teológicos,
em cujo caso não haveria nenhum problema. Mas Galileu para defender-se
de acusações pessoais e para tentar que a Igreja não interviesse no
assunto, se lançou a uma defesa forte do copernicanismo, mudando-se para
Roma e tentando influenciar nas personalidades eclesiásticas; isto teve
talvez um efeito contrário, provocando que a autoridade da Igreja
interviesse para frear a propaganda de Galileu que, ao menos em suas
críticas, era bastante convincente.
Além do decreto da Congregação do Índex,
as autoridades eclesiásticas tomaram outra decisão que afetava
pessoalmente a Galileu e que influiu decisivamente em seu processo, 17
anos mais tarde. Em concreto, por ordem do Papa (Paulo V), o cardeal
Belarmino citou Galileu (que se encontrava então em Roma, dedicado à
propaganda do copernicanismo) e, na residência do cardeal, em 26 de
fevereiro de 1616, o admoestou a abandonar a teoria copernicana. O Papa
tinha mandado Belarmino a que fizesse essa admoestação, acrescentando
que, se Galileu não quisesse abandonar a teoria, o Comissário do Santo
Ofício, diante do notário e testemunhas, o ordenasse para que não
ensinasse, defendesse nem tratasse essa doutrina, e que se isto fosse
negado, o prendesse. Consta que Belarmino fez a admoestação. Mas entre
os documentos que foram conservados existe um que deu espaço a
discussões sobre a força e o alcance desse preceito: disse que, em
continuação à admoestação de Belarmino, o Padre Comissário do Santo
Ofício (o dominicano Michelangelo Seghizzi) transmitiu o preceito
mencionado; mas esse documento está sem assinar. Foram dadas
interpretações de todo tipo; a mais extrema é que tratasse de um
documento falsificado deliberadamente em 1616 ou em 1633 para acabar com
Galileu; mas isto parece muito pouco provável. Com os documentos que
possuímos, é muito difícil saber exatamente como se desenvolveu o
encontro com Belarmino e Galileu, mas está claro que Galileu entendeu
perfeitamente, que em diante, não poderia argumentar a favor do
copernicanismo, e, com efeito, assim o fez durante anos. Precisamente o
processo a que foi submetido 17 anos depois, em 1633, foi motivado
porque, aparentemente, Galileu desobedeceu a esse preceito.
2.2. O processo de 1633
Se o decreto da Congregação do Índex em
1616 foi um equívoco, também o foi proibir Galileu de tratar ou defender
o copernicanismo. Galileu o sabia. Entretanto, obedeceu. Sempre foi e
quis ser um bom católico. Mas sabia que a proibição de 1616 era baseada
em um equívoco e queria solucioná-lo. Inclusive advertia do perigo de
escândalo que poderia ocasionar essa proibição no futuro, se chegasse a
demonstrar com certeza que a Terra gira ao redor do Sol. Seus amigos
concordavam com ele.
Em 1623 coincidiram umas circunstâncias
que pareciam favorecer uma revisão das decisões de 1616, ou pelo menos
tornar possível que se expusesse ainda que fosse com cuidado, os
argumentos a favor do copernicanismo. O fator principal foi a eleição
como Papa do cardeal Maffeo Barberini, que adotou o nome de Urbano VIII.
Era, há muitos anos, um admirador de Galileu, a quem inclusive havia
dedicado uma poesia latina em que louvava seus descobrimentos
astronômicos. Além disso, desde o primeiro momento teve em postos muita
confiança em vários amigos e partidários de Galileu. Em 1624 Galileu foi
a Roma e o Papa o recebeu seis vezes, com grande cordialidade. Mas
Galileu comprovou ao sondar sobre o assunto do copernicanismo, que se
bem Urbano VIII não o considerava herético (já vimos que nunca foi
declarado como tal), o considerava como uma posição doutrinalmente
temerária e, além disso, estava convencido de que nunca poderia se
demonstrar: dizia que os mesmos efeitos observáveis que se explicam com
essa teoria, poderiam ser devidos à outras causas diferentes, pois caso
contrário, estaríamos limitando a onipotência de Deus. Tratava-se de um
argumento que, aparentemente, tinha muita força, e parecia que quem
pretendesse demonstrar que o copernicanismo estava pondo limites à
onipotência de Deus.
Apesar de tudo, o humor do novo Papa e a
posição estratégica de seus amigos levou Galileu a embarcar em um velho
projeto pendente: escrever uma grande obra discutindo o copernicanismo
e, desde então, argumentando a seu favor. Simplesmente, a apresentaria
como um diálogo entre um partidário do geocentrismo e outro do
heliocentrismo, sem deixar resolvida a questão. E acrescentaria o
argumento do Papa. Mas o leitor inteligente logo se daria conta de que
ele tinha razão.
Além disso, Galileu pensava que dispunha
de um argumento novo que demonstrava o movimento da Terra: o argumento
das marés. Segundo Galileu, as marés só poderiam ser explicadas supondo o
movimento da Terra (e não aceita, como se soasse a astrologia, que se
devesse à influência da Lua). Inclusive queria intitular sua obra desse
modo, como um tratado sobre as marés, mas o Papa soube que pretendia
utilizar este título e, como soava demasiadamente realista (de fato o
era), aconselhou colocar outro título que não parecesse uma prova do
movimento da Terra (desde então, como sabemos, o argumento das marés
estava errado). Galileu mudou o título do livro, que passou a chamar
Diálogo em torno dos grandes sistemas do mundo, o ptolomaico e o
copernicano. Um título muito acertado devido, em parte, à interferência
de um Papa que não queria que se tratasse o movimento da Terra como algo
real: mas sem dúvida, essa era a intenção principal de Galileu em sua
obra. Galileu estava disposto a conceder tudo o que fosse necessário,
com tal de publicar uma obra onde se recorressem os argumentos contra a
posição tradicional e a favor do copernicanismo.
Galileu acabou de redigir o Diálogo em
1630, e o levou a Roma para obter a permissão eclesiástica para
imprimi-lo. A permissão deveria ser concedida pelo Mestre do Sagrado
Palácio, o dominicano Niccolò Riccardi, que não sabia astronomia mas era
admirador de Galileu e sempre tinha se mostrado desejoso de ajudá-lo.
Agora Riccardi se encontrou em um compromisso. Deu a entender que não
haveria problemas, ainda que devesse ajustar uma série de detalhes.
Galileu voltou a Florença, a peste causou sérias limitações ao tráfego e
correio entre Florença e Roma, e aí começou uma cadeia de equívocos que
alargaram a concessão da permissão e deixou Galileu irritado. Ao fim de
um ano, Galileu solicitou e obteve a intervenção do Grande Duque de
Toscana e de seu embaixador em Roma para obter a permissão. Riccardi,
que também era toscano e era parente da esposa do embaixador, foi
submetido a uma pressão muito forte. Finalmente concedeu a permissão
para que se imprimisse o livro em Florença, mas com uma série de
condições que se fazia saber Galileu e o Inquisidor de Florença.
Riccardi sabia o que o Papa pensava: que só se poderia tratar o
copernicanismo como uma hipótese matemática, não como uma representação
da realidade; as condições e advertências que deu se encaminhavam a
garantir, que não estava nada claro na obra de Galileu.
Galileu introduziu a mudança, mas,
seguramente, nem todas as que tinha introduzido Riccardi e tivesse
desejado o Papa. No livro, Simplício, o personagem que defende a posição
tradicional de Aristóteles e Ptolomeu, sempre sai perdendo. Simplício
foi um dos mais famosos comentadores antigos de Aristóteles, mas na obra
de Galileu dava a impressão de que seus argumentos e sua atitude
correspondiam muito bem a seu nome. Por outro lado, o argumento favorito
do Papa aparecia no final da obra: depois de ter exposto todos os
argumentos físicos e filosóficos, Simplício, precisamente Simplício,
utilizava esse argumento, e ainda que Salviati, o defensor de Copérnico
(e Galileu) o aprovasse, o final é muito breve e forçado. Para maior
confusão, uma introdução aprovada por Riccardi, em que se explicava que
essa obra não pretendia estabelecer o copernicanismo como teoria
verdadeira, apareceu impressa em um tipo diferente do resto da obra,
dando a impressão de uma adição postiça.
O diálogo terminou de ser impresso em
Florença em 21 de fevereiro de 1632. Galileu enviou em seguida
exemplares por todas as partes, também a seus amigos em outros países da
Europa. Ainda havia problemas de comunicação com Roma por causa da
peste, de modo que os primeiros exemplares não chagaram a Roma até a
metade de maio. Um deles foi entregue ao cardeal Francesco Barberini,
sobrinho e mão direita do Papa, a quem Galileu havia ajudado há alguns
anos, a conseguir o doutorado, e quem considerava, igualmente ao Papa,
como um grande amigo.
Em 1632, a maior preocupação do Papa era
precisamente o movimento do Sol e da Terra. Estava em pleno desenrolar a
Guerra dos Trinta Anos, que começou em 1618 e não terminou até 1648,
que enfrentava toda a Europa em duas metades, os católicos e os
protestantes. Naquele momento havia problemas muito complexos, porque a
França católica se encontrava mais para o lado dos protestantes da
Suécia e Alemanha, enfrentada com outras potências católicas, Espanha e o
Império. Urbano VIII tinha sido cardeal legado em Paris e tendia a
alinhar-se com os franceses, temendo, além disso, uma excessiva
prepotência dos espanhóis, e tentando não perder a França. Tratava-se de
equilíbrios muito difíceis. Os problemas eram graves. Em 8 de março de
1632, em uma reunião de cardeais com o Papa, o cardeal Gaspar Borgia,
protetor da Espanha e embaixador do Rei Católico, acusou abertamente ao
Papa de não defender como era preciso a causa Católica. Criou-se uma
situação extraordinariamente violenta. Nessas condições, Urbano III
via-se especialmente obrigado a evitar qualquer coisa que pudesse ser
interpretada como não defender a fé católica de modo suficientemente
claro.
Precisamente nestas circunstâncias, a
metade de maio, começou a chegar a Roma os primeiros exemplares do
Diálogo. Em um primeiro momento não aconteceu nada. Mas em dois meses, à
metade de julho, se soube que o Papa estava muito enfadado com o livro,
que tentava frear sua difusão, e que iria criar uma comissão para
estudá-lo e julgá-lo.
A documentação que possuímos não permite
saber o que provocou o enfado e a decisão do Papa. Galileu sempre
atribuiu a isto a atuação de seus inimigos (que não eram poucos nem
pouco influentes), que teriam informado ao Papa de modo tendencioso,
predispondo-o contra. Por exemplo, além de denunciar que o livro
defendia o copernicanismo, sendo contra o decreto de 1616, teriam
colocado em relevo que um dos três personagens, Simplício, que sempre
costumava perder, é quem expõe o argumento preferido do Papa sobre a
onipotência de Deus e os limites de nossas explicações. Isto poderia
parecer uma provocação deliberada, e parece que foi assim interpretado:
vários anos depois, Galileu ainda enviava uma mensagem ao Papa, da sua
vila de Arcetri, fazendo-se saber que jamais havia passado por sua mente
tal coisa. Além disso, como foi assinalado, as circunstâncias pessoais
de Urbano VIII naquele momento eram difíceis, e não podia tolerar que se
publicasse um livro, com a permissão eclesiástica de Roma e de
Florença, em que se defendia uma teoria condenada pela Congregação do
Índex em 1616 como falsa e contrária a Sagrada Escritura.
O Papa estabeleceu uma comissão para
examinar as acusações contra Galileu e julgou que o assunto devia ser
enviado ao Santo Ofício (ou Inquisição romana), de onde foi ordenado a
Galileu, que vivia em Florença, que se apresentasse em Roma ante esse
tribunal durante o mês de outubro de 1632. Depois de tentativas de
prorrogação que duraram vários meses, em 30 de dezembro de 1632, o Papa
com a Inquisição deu a conhecer que, se Galileu não se apresentasse em
Roma, enviaria alguém que se certificasse de sua saúde e se visse que
poderia ir a Roma, o levaria preso. O Papa aconselhou seriamente ao
Grande Duque que se abstivesse de intervir, porque o assunto era sério.
As autoridades toscanas decidiram aconselhar a Galileu que fosse a Roma.
O Embaixador Noccolini, que conhecia bem ao Papa e falava com ele com
frequência, advertia que discutir com o Papa e contrariá-lo era o melhor
caminho para arruinar a Galileu. Quando o Papa falava com Niccolini do
problema causado por Galileu, em várias ocasiões encheu-se de cólera.
Todos advertiram Galileu que era melhor ir a Roma e se mostrasse em todo
o momento disposto a obedecer no que dissessem, porque se tomasse outra
atitude as consequências seriam prejudiciais para ele.
Galileu chegou a Roma no domingo dia 13
de fevereiro de 1633, em um liteira facilitada pelo Grande Duque, depois
de esperar na fronteira dos Estados Pontifícios por causa da peste que
seguia em Florença. O embaixador de Toscana, Francesco Niccolini, se
portou maravilhosamente com Galileu, intervindo continuamente em seu
favor ante as autoridades de Roma, de acordo com as instruções do Grande
Duque, Conseguiram que Galileu não estivesse no cárcere do Santo
Ofício, como exigia a norma. Desde sua chegada à Roma até 12 de abril
(dois meses), Galileu viveu no Palácio de Florença, onde se encontrava a
embaixada de Toscana e a casa do embaixador. As autoridades o
recomendaram que evitasse a vida social, de modo que não saía de casa,
mas gozava de um tratamento excepcional por parte do embaixador e de sua
esposa. Niccolini pedia ao Papa que o assunto fosse o mais breve
possível, mas se alongava porque a Inquisição ainda estava deliberando
sobre o modo de atuar. Como se descobriu nos arquivos do Santo Ofício o
escrito de 1616 em que proibia Galileu de tratar de qualquer modo o
copernicanismo, o processo se centrou completamente em uma única
acusação: a desobediência desse preceito em 1616.
Galileu foi chamado a depor no Santo
Ofício na terça-feira 12 de abril de 1633. Sua defesa pode nos parecer
muito estranha: negou que, no Diálogo, defendesse o copernicanismo.
Galileu sabia que o Santo Ofício pediu a opinião de três teólogos a
respeito e que, em 17 de abril, os três informes concluíam sem lugar a
dúvidas (como de fato assim o era) que Galileu, em seu livro, defendia o
copernicanismo; neste caso, os teólogos tinham razão. Isto complicava a
situação, pois um acusado que não reconhecia um erro comprovado devia
ser tratado muito severamente pelo tribunal. Por outro lado, Galileu se
defendeu mostrando uma carta que, a seu pedido, o cardeal Balarmino
tinha escrito depois dos acontecimentos de 1616, para que pudesse se
defender frente àqueles que o caluniavam; nesse escrito, Belarmino dava
fé de que Galileu não teve que abjurar de nada e que simplesmente tinha
sido notificada a proibição da Congregação do Índex. Mas isso podia ser
interpretado também contra Galileu se fosse mostrado, como era o caso,
que em seu livro argumentava a favor da doutrina condenada em 1616. O
tribunal centrou-se em matizes da proibição feita a Galileu em 1616, que
Galileu dizia não se lembrar, porque tinha conservado o documento de
Balarmino e aí não se incluíam esses matizes. Desafortunadamente,
Balarmino havia morrido e não podia esclarecer a situação.
Estes dias Galileu seguia no Santo
Ofício, ainda que tampouco tivesse estado na prisão. Por deferência com o
Grande Duque de Toscana e frente à insistência o embaixador, Galileu
foi instalado nas habitações do fiscal da Inquisição, traziam-lhe
comidas da embaixada de Toscana, e podia passear. Esteve ali desde a
terça-feira 12 de abril até o sábado 30 de abril: 17 dias completos.
Para desbloquear a situação, o Padre
Comissário propôs aos Cardeais do Santo Ofício algo insólito: visitar
Galileu em suas estalagens e tentar convencê-lo a reconhecer seu erro.
Conseguiu depois de uma longa conversa com Galileu em 27 de abril. No
dia seguinte, sem comunicar a ninguém mais, escreveu o que tinha feito e
o resultado ao cardeal sobrinho do Papa, que se encontrava nestes dias
em Castelgandolfo com o Papa; através dessa carta se vê claramente que
esta atuação estava aprovada pelo Papa: desse modo, o tribunal poderia
salvar sua honra condenando a Galileu, e logo poderia usar clemência com
Galileu deixando-o recluso em sua casa, tal como ( disse o Padre
Comissário) sugeriu Vossa Excelência (o cardeal Francesco Barberini).
Com efeito, no sábado 30 de abril
Galileu reconheceu perante o tribunal que, ao voltar a ler agora seu
livro, que tinha acabado há muito tempo, se dava conta de que, devido
não a má fé, mas a vanglória e ao desejo de se mostrar mais engenhoso
que o resto dos mortais, tinha exposto os argumentos a favor do
copernicanismo com uma força que ele mesmo não acreditava que tivesse. A
partir daí, as coisas se desenrolaram como o Comissário tinha previsto.
Esse mesmo dia foi permitido a Galileu voltar ao Palácio de Florença, à
casa do embaixador. Na terça-feira 10 de maio foi chamado ao Santo
Ofício para que apresentasse sua defesa; apresentou o original da carta
do cardeal Belarmino, e reiterou que tinha atuado com reta intenção.
Continuava fechado no palazzo Firenze; o embaixador conseguiu que lhe
permitisse a passear na Vila Médici, e inclusive em Castelgangolfo,
porque lhe causava mal não fazer nenhum tipo de exercício. Entretanto, a
peste continuava açoitando Florença, em alguma carta o diziam que, no
meio de sua desgraça, era uma sorte que não estivesse então em Florença.
Na quinta-feira 16 de junho, a
Congregação do Santo Ofício tinha, a cada semana, sua reunião com o
Papa. Nesta ocasião celebrou-se no palácio do Quirinal. Estavam
presentes 6 dos 10 Cardeais da Inquisição, além do Comissário e do
Assessor (nos interrogatórios e, em geral, em todas as sessões que foram
mencionadas até agora, não estavam presentes os Cardeais: estavam os
oficiais do Santo Ofício que transmitiam as atas à Congregação dos
Cardeais, e estes, com o Papa, tomavam as decisões). Esse dia o Papa
decidiu que Galileu fosse examinado sobre sua intenção com ameaça de
tortura (neste caso tratava-se de uma ameaça puramente formal, já que se
sabia de antemão que não se realizaria). Depois, Galileu devia abjurar
da suspeita de heresia perante a Congregação em pleno. Seria condenado à
prisão ao arbítrio da Congregação, seria proibido que no futuro
tratasse de qualquer modo o tema do movimento da Terra, seria proibido o
Diálogo. Também seria enviada uma cópia da sentença aos núncios
inquisidores, sobretudo ao de Florença, para que a lesse publicamente em
uma reunião na qual procuraria que se encontrassem os professores de
matemática e filosofia. O Papa comunicou esta decisão ao embaixador
Niccolini em 19 de junho. Niccolini pediu clemência, e o Papa,
manifestando algo que, como se apontou, estava já decidido de antemão,
lhe respondeu que, depois da sentença, voltaria a ver o embaixador para
ver como se poderia arrumar para que Galileu não estivesse na prisão. De
acordo com o Papa, Niccolini comunicou a Galileu que a causa seria
terminada em seguida e o livro proibido sem dizer-lhe nada sobre o que
tocava a sua pessoa, para não causar-lhe mais aflição.
Desde a terça-feira 21 de junho até
sexta-feira 24 de junho, Galileu esteve de novo no Santo Ofício. Na
quarta-feira dia 22, Galileu foi levado ao convento de Santa Maria sopra
Minerva; foi lida a sentença (assinada por 7 dos 10 Cardeais do Santo
Ofício) e abjurou de sua opinião sobre o movimento da Terra diante da
Congregação. Foi, para Galileu, o mais desagradável de todo o processo,
porque afetava diretamente a sua pessoa e se desenvolveu um público de
modo humilhante. Na quinta-feira o Papa, com a Congregação do Santo
Ofício reunida no Quirinal, concedeu a Galileu a prisão fosse comutada
por arresto na Vila Médici, aonde se trasladou na sexta-feira dia 24. Na
quinta-feira dia 30 foi permitido a Galileu abandonar Roma e
trasladar-se a Siena, na Toscana, ao palácio do arcebispo. Galileu
deixou Roma na quarta-feira 6 de julho e chegou a Siena no sábado 9 de
julho. Tinha acabado o pesadelo romano.
A sentença da Inquisição começa com os
nomes dos 10 cardeais da Inquisição, e acaba com as assinaturas de 7
deles. O Papa, junto com a Congregação, decidiu que Galileu fosse
condenado e que abjurasse de sua opinião, mas no texto da sentença não
aparece em nenhum momento citado o Papa; portanto, esse documento não
pode ser considerado como um ato de magistério pontifício, e menos ainda
como um ato de magistério infalível nem definitivo. No texto da
abjuração se lê – maldigo e detesto os mencionados erros e heresias – ;
mas não se trata de uma doutrina definida como heresia pelo magistério
da Igreja: no texto da abjuração se diz, como assim é, que essa doutrina
foi declarada contrária à Sagrada Escritura, e, como sabemos, esta
declaração se fez mediante um decreto da Congregação do Índex, que não
constituiu um ato de magistério infalível nem definitivo.
O Arcebispo de Siena, Ascanio
Piccolomini, era um antigo discípulo, admirador e grande amigo de
Galileu. Tinha se oferecido várias vezes para se alojar em sua casa,
tendo em conta, além disso, que estava relativamente perto de Florença e
que em Florença ainda existiam vestígios da peste. Em Siena, Galileu
foi tratado esplendidamente e se recuperou da tensão dos meses
precedentes. A pedido do Grande Duque de Toscana, o Papa, junto com o
Santo Ofício, concedeu em 1 de dezembro de 1633 que Galileu pudesse
voltar a sua casa nas imediações de Florença, na Vila do Gioiello,
contanto que permanecesse como em prisão domiciliar, sem sair daí nem
ter uma vida social. Consta que em 17 de dezembro Galileu já estava em
sua casa, e ali continuou até sua morte em 1642.
Em Arcetri Galileu continuou
trabalhando. Ali acabou seus Discursos e demonstrações em torno de novas
ciências, obra que publicou em 1638 na Holanda. Trata-se de sua obra
mais importante, onde expõe os fundamentos da nova ciência da mecânica,
que se desenvolverá neste século até alcançar 50 anos mais tarde, com os
Princípios matemáticos da filosofia natural de Newton, obra publicada
em 1687, a formulação que marca o nascimento definitivo da ciência
experimental moderna.
3. PERGUNTAS E INTERPRETAÇÕES
Até aqui tentei expor os dados básicos
do processo de Galileu. A partir deste momento me ocuparei da
valorização desses dados. Dada a perspectiva que adotei, somente
aludirei brevemente a alguns aspectos que considero especialmente
interessantes.
Em primeiro lugar, podemos dizer que
sabemos o fundamental sobre processo de Galileu? É possível que existam
dados importantes desconhecidos? A resposta é que os documentos que se
conservam permitem reconstruir quase todos os aspectos do processo com
grande segurança. Possuímos os interrogatórios e declarações de Galileu
em sua totalidade, assim como as decisões do Papa e da Congregação do
Santo Ofício. Neste terreno, não é plausível que apareçam novos
documentos que afetem substancialmente o que já sabemos. Seguramente
existem buracos, um deles, bastante importante, se refere aos
acontecimentos do verão de 1632, desde que o Diálogo chegou a Roma até
que o Papa convocasse a congregação de teólogos para decidir o que
fazer. Quem e como informou ao Papa? Galileu sempre considerou seu
processo como consequência das informações tendenciosas de seus
inimigos. É possível que existam documentos sobre esses acontecimentos,
cujo conhecimento permitiria compreender melhor porque se desenrolaram
do modo que o fizeram. Poderíamos saber, talvez, até que ponto as coisas
poderiam ter acontecido de outra maneira. De todos os modos, isso não
mudaria os fatos já conhecidos, entre os quais se conta que Galileu
levou adiante, durante anos, seu programa copernicano, ainda que
exteriormente parecesse ter renunciado a ele, e que Urbano VIII ficou
muito afetado quando notou que seu admirado amigo estava, na realidade,
fazendo um jogo diferente do que ele pensava.
Isto não significa que Galileu mentisse
deliberadamente. Mas não há dúvida de que considerou o copernicanismo
como uma teoria verdadeira, também depois do processo. Em sua carta a
Cristina de Lorena explicou amplamente como se poderia solucionar a
aparente contradição entre o copernicanismo e a Bíblia; tinha razão e o
sabia: por este motivo podia admitir, com consciência tranquila, o
copernicanismo, inclusive depois das condenações de 1616 e 1633. O mesmo
acontecia com seus amigos e com outras pessoas suficientemente
informadas. O que nos leva a perguntar por que as autoridades
eclesiásticas condenaram uma teoria que, se bem não estava completamente
demonstrada naquele momento, podia demonstrar-se e, de fato, recebeu
novas confirmações nos anos seguintes.
Para responder a essa pergunta devemos
considerar que a ciência experimental moderna, tal como a conhecemos
agora, estava nascendo e se encontrava ainda em um estado embrionário.
Precisamente foi Galileu um de seus pais fundadores. Mas o Galileu que
viam as autoridades era muito diferente do que vemos agora, à luz do
desenvolvimento da física durante quase quatro séculos. Galileu havia
realizado descobrimentos astronômicos importantes e tinha sido
reconhecido. Mas não podia provar o movimento da Terra. A ciência
moderna praticamente não existia: as contribuições mais importantes de
Galileu a essa ciência foram publicadas, nos Discursos, depois do
processo. Os eclesiásticos (Belarmino, Urbano VIII e muitos outros),
assim como a maioria dos professores universitários, pensavam que o
movimento da Terra era um absurdo, porque contradiz muitas experiências
certas e, se existisse, deveria ter consequências que de fato não se
observavam. Não era fácil levar a sério o copernicanismo. Os teólogos
que valorizaram em 1616 o repouso do Sol e o movimento da Terra
disseram, em primeiro lugar, que ambos eram absurdos de filosofia e,
além disso, pareciam contrários à Bíblia. Belarmino, e outros
eclesiásticos, notaram que caso se chegasse a demonstrar o movimento da
Terra, uma série de passagens bíblicas deveriam ser interpretadas de
modo não literal; sabiam que isso poderia ser feito, mas pensavam que o
movimento da Terra nunca seria demonstrado e que era absurdo. Isto não
justifica toda sua atuação, mas permite situá-la em seu contexto
histórico real e torná-la compreensível.
O processo de Galileu não deve ser
entendido como um enfrentamento entre ciência e religião. Galileu sempre
se considerou católico e tentou mostrar que o copernicanismo não se
opunha à doutrina católica. Por sua vez, os eclesiásticos não se opunham
ao progresso da ciência; durante sua viagem a Roma em 1611, foi
tributada a Galileu uma grande homenagem pública em um ato celebrado no
Colégio Romano dos jesuítas, por suas descobertas astronômicas. O
problema é que não consideravam que o movimento da Terra fosse uma
verdade científica, e inclusive alguns (entre eles, o Papa Urbano VIII)
estavam convencidos de que nunca poderia ser demonstrado.
Os inimigos de Galileu desempenharam,
provavelmente, um papel importante para desencadear o processo. O
temperamento muito vivo de Galileu não contribuía para apaziguar as
numerosas disputas que originou seu trabalho desde 1610. Além disso, ele
mesmo procurou inimizades de modo desnecessário, de tal modo que,
quando o Diálogo foi publicado em 1632, é fácil imaginar que seus
inimigos em Roma puderam apresentar ao Papa as coisas de tal maneira
que, tendo em conta as difíceis circunstâncias pelas que atravessava
Urbano VIII, este se considerou ofendido por Galileu e viu ser
necessário intervir com força. O temperamento de Urbano VIII também
desempenhou um papel: tinha um caráter forte e pensou que Galileu tinha
traído sua amizade sincera; repetiu várias vezes ao embaixador Niccolini
que Galileu havia caçoado dele. Consta que, ao falar deste tema com
Niccolini, Urbano VIII se encolerizava. Galileu certamente não
pretendeu, de modo algum, caçoar do Papa, mas é provável que os inimigos
de Galileu, no verão de 1632, convenceram ao Papa do contrário, e que
isto influíra seriamente no desenvolvimento dos acontecimentos.
Não se deve pensar somente em inimigos
pessoais de Galileu. O movimento da Terra podia facilmente ser visto
como causa de dificuldades importantes para o cristianismo. Se a Terra
se transformasse em um planeta a mais, e se existissem muitas mais
estrelas das que se veem a olho nu, não poderia isto ser interpretado na
linha de Giordano Bruno, que afirmou que existem muitos mundos como o
nosso, com suas estrelas e planetas habitados? Nesse caso, que
significado teria a Encarnação e a Redenção de Jesus Cristo? O que
aconteceria com a salvação de possíveis seres inteligentes que poderiam
viver em outros lugares do universo? São perguntas que, na atualidade,
se propõem ainda com mais força do que então, frente à possibilidade,
remota mas real, de se chegar a saber que existe vida em outros lugares
do universo. Em realidade, não é difícil perceber que a revelação cristã
se refere diretamente ao que acontece conosco e, portanto, não há
dificuldade em princípio para integrar dentro dela outros seres
inteligentes. Além disso, a Igreja ensina que os frutos da Redenção se
aplicam também a pessoas que viveram antes da Encarnação, ou que vivem
depois dela e não conhecem, sem culpa sua, a verdade do cristianismo.
Mas se compreende que estes problemas puderam influir naquele momento. A
associação do copernicanismo com Bruno não podia favorecer a Galileu.
Pode-se recordar que duas pessoas chaves na condenação do copernicanismo
em 1616 foram o Papa Paulo V e o cardeal Belarmino; ambos eram Cardeais
da Inquisição quando, em 1600, o processo de Bruno chegou a seu fim, e
pode se supor que, ao pensar em copernicanismo, o veriam, por assim
dizer, associados aos erros teológicos de Bruno.
O movimento da Terra parecia afetar ao
cristianismo desde outro ponto de vista. O Diálogo de Galileu continha
críticas muito fortes contra a filosofia de Aristóteles, que se vinha
usando, ao menos desde o século XIII, como auxílio para a teologia.
Nesta filosofia se admitia, por exemplo, que no mundo existe finalidade,
e que as qualidades sensíveis existem objetivamente e são base do
conhecimento humano. Estas ideias pareciam se arruinar com a nova
filosofia matemática e mecanicista de Galileu. A nova ciência nascia em
polêmica com a filosofia natural antiga, e não parecia poder preencher o
buraco que esta deixava. Ainda que as críticas de Galileu ao
aristotelismo se reduzissem a aspectos concretos da física que,
certamente, deviam ser abandonados, parecia que a nova ciência pretendia
jogar fora, como se costuma dizer, a criança junto com a banheira. Este
problema segue sendo atual. Inclusive pode-se dizer que o progresso
científico dos últimos séculos o tornou cada vez mais agudo. São muitas
as vozes que pedem um sério esforço para integrar o progresso científico
dentro de uma visão mais ampla que inclua as dimensões metafísicas e
éticas da vida humana. Neste sentido, os que viam na nova ciência uma
fonte de dificuldades não estavam completamente errados. Obviamente, o
problema não é a ciência em si mesma, cuja legitimidade seria absurdo
duvidar. O progresso científico é ambivalente e o fato de que possa ser
mal utilizado mal não significa que deva castigar a ciência simplesmente
ressaltando que, no fundo do caso Galileu, encontram-se alguns
problemas que são reais, continuam sendo atuais, e ainda esperam uma
solução. Qual o alcance do conhecimento científico é um desses
problemas.
Consta que houve uma tentativa de
denunciar Galileu perante a Santa Sé por sua filosofia atomista, exposta
brevemente em sua obra, de 1623, Il Saggiatore, argumentando que
Galileu negava a objetividade das qualidades sensíveis (cores, odores,
sabores) e que isto contradiz a doutrina do Concílio Trento sobre a
Eucaristia, segundo a qual, depois da consagração, encontram-se as
espécies sacramentais (acidentes do pão, como por exemplo as qualidades
sensíveis) sem seu sujeito natural. Chegou-se a dizer que o motivo mais
profundo da acusação contra Galileu em 1632 era este, e que o Papa
conseguiu que o processo se centrasse em torno ao movimento da Terra,
porque em outro caso as consequências teriam sido muito piores. A
denúncia mencionada existiu, mas parece exagerada demais centrar aí os
problemas de Galileu. Esta questão põe de manifesto, entretanto, que a
nova física vinha acompanhada por uma filosofia mecanicista que, em
parte, chocava com a filosofia e a teologia geralmente admitidas, e é
certo que este problema continuou vivo durante muito tempo e inclusive
continua vivo, em parte, na atualidade.
O caso de Galileu não afetou seriamente o
progresso da ciência. A semente que Galileu plantou deu fruto
imediatamente, também na Itália. Ao cabo de poucas décadas, Newton levou
a física moderna até seu nascimento definitivo, e o trabalho de Galileu
ficou bem assentado.
Por fim, é interessante assinalar que
não existiu nenhum outro caso semelhante ao de Galileu. O caso de
Galileu não é um caso entro outros do mesmo tipo. O caso mais semelhante
é o do evolucionismo, mas a teoria da evolução, dentro de seu âmbito
científico, nunca foi condenada por nenhum organismo da Igreja. Quando
se tenta colocar no mesmo nível que o caso de Galileu assuntos como o
aborto, a eutanásia, a bioética, etc., deve-se ressaltar que, se bem
esses problemas incluem componentes relacionados com a ciência, não são
problemas propriamente científicos, mas, no máximo, de aplicação dos
conhecimentos científicos. Mas isto exigiria uma reflexão específica que
vai além dos objetivos a que me propus.
REFERÊNCIAS : Os dados deste
artigo estão retirados, em sua maioria, da Edição Nacional das obras de
Galileu, preparada por Antonio Favaro: Le Opere di Galileo Galilei, 20
volumes, reimpressão, G. Barbèra Editore, Firenze 1968. Os documentos do
processo se encontram no tomo XIX, pp. 272-421, e também foram editados
por Sérgio Pagano: I documenti del processo di Galileo Galilei,
Pontifícia Academia Scientiarum, Cidade do Vaticano 1984.
Fonte: http://www.acidigital.com/controversia/galileu.htm
Nenhum comentário:
Postar um comentário