Na manhã desta sexta-feira o pregador da casa pontifícia, Pe. Raniero Cantalamessa, OFM, Cap, dirigiu a primeira pregação de Advento. Publicamos a seguir o texto na íntegra:
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Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap.
Primeira pregação de Advento
FRANCISCO DE ASSIS E A REFORMA DA IGREJA POR MEIO DA SANTIDADE
O propósito destas três meditações do
Advento é preparar-nos para o Natal na companhia de Francisco de Assis.
Dele, nesta primeira meditação, gostaria de destacar a natureza do seu
retorno ao Evangelho. O teólogo Yves Congar, em seu estudo sobre
“Verdadeira e falsa reforma na Igreja” vê em Francisco o exemplo mais
claro de reforma da Igreja pelo caminho da santidade[1].
Gostaríamos de procurar compreender em que consistiu a sua reforma pelo
caminho da santidade e o que o seu exemplo implica para cada época da
Igreja, inclusive a nossa.
1. A conversão de Francisco
Para entender um pouco da aventura de
Francisco é preciso partir da sua conversão. Desse evento existem, nas
fontes, diferentes descrições com notáveis diferenças entre si.
Felizmente temos uma fonte absolutamente confiável que nos dispensa de
escolher entre as várias versões. Temos o mesmo testemunho de Francisco
no seu Testamento, a sua ipsissima vox, como se diz das palavras certamente ditas por Cristo no Evangelho. Diz:
«O Senhor concedeu a mim, irmão
Francisco, que começasse a fazer penitência assim: quando eu estava nos
pecados parecia-me muito amargo ver os leprosos: e o próprio Senhor
conduziu-me entre eles e fui misericordioso para com eles. E ao
afastar-me deles, o que me parecia amargo foi-me trocado por doçura de
alma e corpo. E, depois, demorei só um pouco e saí do mundo” » (FF 110).
É sobre esse texto que justamente se
baseiam os historiadores, mas com um limite intransponível para eles. Os
historiadores, mesmo os mais bem intencionados e mais respeitosos com
as peculiaridades da vida de Francisco, como era, entre os italianos
Raoul Manselli, não conseguem entender o porquê último da sua mudança
radical. Detêm-se – e com razão, por causa do seu método – na porta,
falando de um “segredo de Francisco”, destinado a permanecer assim para
sempre.
O que se consegue constatar
historicamente é a decisão de Francisco de mudar o seu status social. De
pertença à classe superior, que contava na cidade por nobreza e
riqueza, ele escolheu colocar-se no extremo oposto, compartilhando a
vida dos últimos, daqueles que não eram nada, os assim chamados
“menores”, atingidos por todos os tipos de pobreza.
Os historiadores justamente insistem no
fato de que Francisco não escolheu a pobreza e muito menos o pauperismo;
escolheu os pobres! A mudança é motivada mais pelo mandamento; “Ama o
teu próximo como a ti mesmo”, que pelo conselho: “Se queres ser
perfeito, vai’, vende tudo o que tens e dá aos pobres, depois vem e
segue-me”. Era a compaixão pela pobre gente, mais do que a busca da
própria perfeição que o movia, a caridade mais do que a pobreza.
Tudo isso é verdade , mas ainda assim
não toca o fundo do problema. É o efeito da mudança, não a sua causa. A
escolha verdadeira é muito mais radical: não se tratou de escolher entre
riqueza e pobreza, nem entre ricos e pobres, entre a pertença a uma
classe mais do que a outra, mas de escolher entre si mesmo e Deus, entre
salvar a própria vida ou perdê-la pelo Evangelho.
Houve alguns (por exemplo, em tempos
mais recentes, Simone Weil ), que chegaram a Cristo por meio do amor aos
pobres e houve outros que chegaram aos pobres partindo do amor por
Cristo. Francisco pertence a este segundo grupo. A razão profunda da sua
conversão não é de natureza social, mas evangélica. Jesus tinha
formulado a lei uma vez por todas com uma das frases mais solenes e mais
certamente autênticas do Evangelho:
“Se alguém quer vir após mim ,
negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a
sua vida a perderá , mas quem perder a sua vida por minha causa a
encontrará ” (Mt 16 , 24-25) .
Francisco, beijando o leproso, negou-se a
si mesmo naquilo que era mais “amargo” e repugnante à sua natureza. Fez
violência a si mesmo. O detalhe não escapou ao seu primeiro biógrafo
que descreve assim o episódio:
“Um dia um leproso parou diante dele: fez violência a si mesmo, aproximou-se dele e o beijou. A partir daquele momento decidiu desprezar-se sempre mais, até que pela misericórdia do Redentor obteve plena vitória”[2].
Francisco não foi voluntariamente aos
leprosos, motivado por humana e religiosa compaixão. “O Senhor, escreve,
levou-me no meio deles”. É nesse pequeno detalhe que os historiadores
não sabem – nem poderiam – dar um juízo, e de fato é a origem de tudo.
Jesus tinha preparado o seu coração para que a sua liberdade, no momento
certo, respondesse à graça. O sonho de Spoleto tinha servido para isso e
a pergunta de se preferia servir o servo ou o patrão, a doença, a
prisão em Perugia e aquele mal-estar estranho que não lhe permitia mais
encontrar alegria nas diversões e lhe fazia procurar lugares solitários.
Embora sem pensar que se tratasse de
Jesus em pessoa sob as aparências de um leproso (como mais tarde
tentou-se fazer, pensando no caso análogo da vida de São Martinho de
Tours[3]), naquele momento o
leproso para Francisco representava em todos os aspectos Jesus. Não
tinha ele dito: “O fizestes comigo”? Naquele momento escolheu entre si
mesmo e Jesus. A conversão de Francisco é da mesma natureza daquela de
Paulo. Para Paulo, em um certo momento, aquilo que antes tinha sido
“lucro” mudou e tornou-se “perda”, “por amor de Cristo” (Fil 3, 5ss);
para Francisco aquilo que tinha sido amargo converteu-se em doçura,
também aqui “por Cristo”. Depois deste momento, ambos podem dizer: “Já
não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim”.
Tudo isso nos obriga a corrigir uma
certa imagem de Francisco popularizada pela literatura posterior e
aceita por Dante na Divina Comedia. A famosa metáfora das núpcias de
Francisco com a Senhora Pobreza que deixou marcas profundas na arte e na
poesia franciscanas pode ser enganosa. Não apaixona-se por uma virtude,
nem mesmo pela pobreza; apaixona-se por uma pessoa. As núpcias de
Francisco foram, como aquelas de outros místicos, um casamento com
Cristo.
Aos companheiros que lhe perguntavam se
ele pretendia ter uma mulher, vendo-o uma noite estranhamente ausente e
brilhante, o jovem Francisco respondeu : “Terei a esposa mais nobre e
bela que vocês jamais viram”. Esta resposta é muitas vezes mal
interpretada. Do contexto aparece claro que a esposa não é a pobreza,
mas o tesouro escondido e a pérola preciosa, ou seja, Cristo. “Esposa,
comenta Celano que narra o episódio, é a verdadeira religião que ele
abraçou; e o reino dos céus é o tesouro escondido que ele procurou”[4].
Francisco não se casou com a pobreza,
nem sequer com os pobres; casou-se com Cristo e foi por amor a ele que
se casou, por assim dizer “em segundas núpcias” com a Senhora pobreza.
Assim será sempre na santidade cristã. Na base do amor pela pobreza e
pelos pobres, ou está o amor por Cristo, ou os pobres serão, de um modo
ou de outro, instrumentalizados e a pobreza se tornará facilmente um
fato polêmico contra a Igreja, ou uma ostentação de maior perfeição com
relação a outros na Igreja, como aconteceu, infelizmente, também em
alguns dos seguidores do Poverello. Em ambos os casos, faz-se da pobreza a pior forma de riqueza, aquela da própria justiça.
2. Francisco e a reforma da Igreja
Como foi que aconteceu que a partir de
um evento tão íntimo e pessoal, como foi a conversão do jovem Francisco,
tenha começado um movimento que mudou ao mesmo tempo o rosto da Igreja e
teve tanta influência na história, até os nossos dias?
É preciso dar uma olhada na situação da
época. Na época de Francisco a reforma da Igreja era uma necessidade
sentida mais ou menos conscientemente por todos. O corpo da Igreja vivia
tensões e lacerações profundas. De um lado estava a Igreja
institucional – papa, bispos, alto clero – desgastados pelos seus
perenes conflitos e pelas suas alianças muito próximas com o império.
Uma Igreja sentida muito distante, envolvida em assuntos muito acima dos
interesses do povo. Em seguida, estavam as grandes ordens religiosas,
muitas vezes prósperas pela cultura e espiritualidade após as várias
reformas do século XI, entre as quais aquela Cisterciense, mas
fatalmente identificadas com os grandes proprietários de terras,
senhores feudais da época, vizinhos e ao mesmo tempo remotos também
eles, por problemas e padrões de vida, do povo comum.
No lado oposto havia uma sociedade que
começava a emigrar dos campos para as cidades em busca de maior
liberdade das várias servidões. Esta parte da sociedade identificava a
Igreja com as classes dominantes das quais se sentia a necessidade de
libertar-se. Assim, se alinhavam de boa vontade com aqueles que a
contradiziam e a combatiam: hereges, grupos radicais e pauperísticos,
enquanto simpatizava com o baixo clero, muitas vezes não com a altura
espiritual dos prelados, porém mais perto das pessoas.
Havia, portanto, fortes tensões que cada
um procurava explorar em proveito próprio. A Hierarquia procurava
responder a estas tensões melhorando a própria organização e reprimindo
os abusos, tanto internamente (luta contra a simonia e concubinato dos
padres) quanto externamente na sociedade. Os grupos hostis procuravam,
pelo contrário, explodir as tensões, radicalizando o contraste com a
Hierarquia dando origem a movimentos mais ou menos cismáticos. Todos
brandiam contra a Igreja o ideal da pobreza e simplicidade evangélica
fazendo disso uma arma polêmica, mais do que um ideal espiritual a ser
vivido com humildade, chegando a questionar também o ministério da
Igreja, o sacerdócio e o papado.
Estamos acostumados a ver Francisco como
o homem providencial que capta essas demandas populares de renovação,
as purifica de toda carga polêmica e as traz de volta ou as atua na
Igreja em profunda comunhão e submissão a essa. Francisco, portanto,
como uma espécie de mediador entre os hereges rebeldes e a Igreja
institucional. Em um conhecido manual de história da Igreja é
apresentada dessa forma a sua missão:
“Já que a riqueza e o poder da
Igreja apareciam muitas vezes como uma fonte de graves males e os
hereges do tempo a utilizavam como argumento para as principais
acusações contra ela, em algumas almas piedosas surgiu o nobre desejo de
restaurar a vida pobre de Jesus e da Igreja primitiva, para poder assim
mais eficazmente, influenciar no povo com a palavra e o exemplo”[5].
Entre estas almas coloca-se naturalmente
em primeiro lugar, juntamente com São Domingos, Francisco de Assis. O
historiador protestante Paul Sabatier, embora tão benemérito dos estudos
franciscanos, tornou quase canônica entre os historiadores, e não só
entre aqueles leigos e protestantes, a tese segundo a qual o cardeal
Ugolino (o futuro Papa Gregório IX) teria tido a intenção de captar
Francisco para a Cúria, domesticando a carga crítica e revolucionária do
seu movimento. Na prática é a tentativa de fazer de Francisco, um
precursor de Lutero, ou seja, um reformador pela via de críticas, mais
do que da santidade.
Não sei se esta intenção possa ser
atribuída a algum dos grandes protetores e amigos de Francisco. Parece
difícil atribuí-la ao card. Ugolino e menos ainda a Inocêncio III,
conhecido pela ação reformadora e o apoio dado às várias formas novas de
vida espiritual surgidas em seu tempo, incluído os Frades Menores, os
dominicanos, os Humilhados Milaneses. Uma coisa, porém, é absolutamente
certa: aquela intenção nunca passou pela mente de Francisco. Ele nunca
pensou ser chamado para reformar a Igreja.
É preciso ter cuidado para não tirar
conclusões erradas das famosas palavras do Crucifixo de São Damião
“Vai’, Francisco e repara a minha Igreja que, como vês, está em ruínas”.
As fontes mesmas nos asseguram que ele compreendeu aquelas palavras no
sentido bastante modesto de ter que reparar materialmente a igrejinha de
São Damião. Foram os discípulos e os biógrafos que interpretaram – e, é
preciso dizer, não sem razão – aquelas palavras como se referindo à
Igreja instituição e não só à Igreja edifício. Ele permaneceu sempre na
sua interpretação literal e de fato continuou a reparar outras
igrejinhas nos arredores de Assis que estavam em ruínas.
Também o sonho em que Inocêncio III
teria visto o Poverello sustentar com as suas costas a Igreja de Latrão
desmoronando não diz nada de mais. Supondo que o fato seja histórico (um
fato análogo também é narrado sobre São Domingos), o sonho foi do papa,
não de Francisco! Ele nunca foi visto como o vemos hoje no afresco de
Giotto. Isto significa ser reformador pelo caminho da santidade: sê-lo,
sem sabê-lo!
3. Francisco e o retorno ao Evangelho
Se não quis ser um reformador, o que foi
que quis ser e fazer Francisco? Também aqui temos a sorte de ter o
testemunho direto do Santo no seu Testamento:
“E depois que o Senhor me deu irmãos
, ninguém me mostrou o que eu deveria fazer; mas o mesmo Altíssimo me
revelou que eu deveria viver segundo a forma do santo Evangelho. E eu
com poucas palavras e simplesmente o fiz escrever, e o senhor Papa mo
confirmou”.
Fala do momento no qual, durante uma
Missa, escutou a passagem do evangelho onde Jesus envia os seus
discípulos dizendo: “Enviou-os a pregar o reino de Deus e a curar os
enfermos. E disse-lhes: «Nada leveis para o caminho, nem bastão, nem
alforje, nem pão, nem dinheiro; tampouco tenhais duas túnicas” (Lc 9,
2-3)[6]. Foi uma revelação
impressionante daquelas que orientam toda uma vida. Daquele dia em
diante foi clara a sua missão: um retorno simples e radical ao evangelho
real, aquele vivido e pregado por Jesus. Restaurar no mundo a forma e o
estilo de vida de Jesus e dos apóstolos descrito nos evangelhos.
Escrevendo a Regra para os seus frades começará assim:
“A regra e a vida dos Frades Menores é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo”.
Francisco não teorizou esta sua
descoberta, tornando-a o programa para a reforma da Igreja. Ele realizou
em si a reforma e assim indicou tacitamente à Igreja o único caminho
para sair da crise: reaproximar-se do evangelho, reaproximar-se dos
homens e especialmente dos humildes e dos pobres.
Este retorno ao Evangelho reflete-se em
primeiro lugar na pregação de Francisco. É surpreendente, mas todos
notaram: o Poverello fala quase sempre de “fazer penitência”. A partir
de então, diz o Celano, com grande fervor e exultação, ele começou a
pregar a penitência, edificando todos com a simplicidade de suas
palavras e a generosidade de seu coração. Onde quer que fosse, Francisco
dizia, recomendava, suplicava que fizessem penitência[7].
O que é que Francisco compreendia com
esta palavra que ele trazia tanto no coração? Neste sentido caímos (pelo
menos eu caí por muito tempo) em erro. Reduzimos a mensagem de
Francisco a uma simples exortação moral, a um bater-se no peito,
angustiar-se e mortificar-se para expiar os pecados, enquanto que tem
toda a vastidão e o ar do evangelho de Cristo. Francisco não exortava a
fazer “penitências”, mas fazer “penitência” (no singular”!) que,
veremos, é totalmente outra coisa.
O Poverello, exceto nos poucos casos que
conhecemos, escrevia em latim. E o que encontramos no texto latino, do
Testamento, quando escreve: “O Senhor deu a mim, frade Francisco,
começar a fazer penitência assim”? Encontramos a expressão “poenitentiam agere”. Sabe-se
que ele amava expressar-se com as mesmas palavras de Jesus. E esta
palavra – fazer penitência – é a palavra com a qual Jesus começou a
pregar e que repetia em cada cidade e aldeia onde ia:
“Depois que João foi preso, veio
Jesus para a Galiléia proclamando o Evangelho de Deus: cumpriu-se o
tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no
Evangelho” (Mc 1, 15).
A palavra que hoje se traduz com “convertei-vos” ou “arrependei-vos”, no texto da Vulgata usado pelo Poverello, soava “poenitemini” e em Atos 2, 37 ainda mais literalmente “poenitentiam agite”,
fazei penitência. Francisco nada fez além de relançar o grande apelo à
conversão com o qual se abre a pregação de Jesus no Evangelho e aquela
dos apóstolos no dia de Pentecostes. O que ele quis dizer com a palavra
“conversão” não precisa explicá-lo: sua vida, ele mostrou.
Francisco fez no seu tempo aquilo que no
tempo do Concílio Vaticano II tentou-se fazer com o lema: “quebrar as
muralhas”: quebrar o isolamento da Igreja, trazê-la de novo para o
contato com o povo. Um dos fatores de escuridão do evangelho era a
transformação da autoridade compreendida como serviço, em autoridade
compreendida como poder que tinha produzido infinitos conflitos dentro e
fora da Igreja. Francisco, por sua vez, resolve o problema em senso
evangélico. Na sua Ordem, novidade absoluta, os superiores se chamarão
ministros, ou seja, servos, e todos os outros frades, ou seja, irmãos.
Outro muro de separação entre a Igreja e
o povo era a ciência e a cultura da qual o clero e os monges tinham o
monopólio na prática. Francisco sabe disso e, portanto, assume a posição
drástica que sabemos sobre este ponto. Ele não é contrário à
ciência-conhecimento, mas à ciência-poder; aquela que favorece aqueles
que sabem ler sobre aqueles que não sabem ler e lhes permite comandar
com altivez ao irmão: “Traga-me o breviário”. Durante o famoso Capítulo
das Esteiras a alguns dos seus irmãos que queriam empurrá-lo a
adequar-se à atitude das “ordens” cultas do tempo, respondeu com
palavras de fogo que deixaram, lê-se, os frades tomados de temor:
“Irmãos, meus irmãos, Deus me chamou
para trilhar o caminho da simplicidade e o mostrou para mim. Não quero,
portanto que me citem outrsa Regras, nem aquela de Santo Agostinho, nem
aquela de São Bernardo ou de São Bento. O Senhor revelou -me ser sua
vontade que eu fosse um idiota no mundo: esta é a ciência à qual Deus
quer que nos dediquemos! Ele vos confundirá por meio da vossa mesma
ciência e sabedoria”[8].
Sempre a mesma atitude coerente. Ele
quer para si e para os seus irmãos a mais rígida pobreza, mas na Regra,
exorta-os a “não desprezar e a não julgar os homens que vêm vestidos com
hábitos finos e coloridos e usar comida e bebida delicadas, mas sim
cada um julgue e despreze a si mesmo”[9].
Escolhe ser um iletrado mas não condena a ciência. Uma vez assegurado
que a ciência não extinga “o espírito da santa oração e devoção”, será
ele mesmo a permitir a frade Antonio de dedicar-se ao ensino da teologia
e São Boaventura não pensa que está traindo o espírito do fundador,
abrindo a ordem aos estudos nas grandes universidades. Yves Congar vê
nisso uma das condições essenciais da “verdadeira reforma” na Igreja, a
reforma, ou seja, que permanece tal e não se transforma em cisma: isto
é, a capacidade de não absolutizar a própria intuição, mas permanecer
solidário com o todo que é a Igreja[10]. A convicção, diz o Papa Francisco, na sua recente Exortação apostólica Fidei gaudium, que “o todo é superior à parte”.
4. Como imitar Francisco
O que diz a nós hoje a experiência de
Francisco? O que podemos imitar dele, todos e rápido? Sejam aqueles que
Deus chama a reformar a Igreja pelo caminho da santidade, sejam aqueles
que se sentem chamados a renová-la pelo caminho da crítica, sejam
aqueles que ele mesmo chama a reformá-la pelo caminho do cargo que
ocupam? A mesma coisa com a qual se começou a aventura espiritual de
Francisco: a sua conversão do eu a Deus, a sua negação de si. É assim
que nascem os verdadeiros reformadores, aqueles que mudam realmente algo
na Igreja. Os mortos a si mesmos. Melhor, aqueles que decidem seriamente
morrer a si mesmos, porque se trata de uma empresa que dura toda a vida
e também além, se, como dizia brincando santa Teresa de Ávila, o nosso
amor próprio morre vinte minutos depois de nós.
Dizia um santo monge ortodoxo, Silvano
do Monte Athos: “Para ser verdadeiramente livres, é necessário começar a
ligar a si mesmo”. Homens como estes são livres com a liberdade do
Espírito; nada os para e nada os espanta mais. Tornam-se reformadores
pelo caminho da santidade, e não somente pelo caminho do ofício.
Mas o que significa a proposta de Jesus
de negar-se a si mesmo? É ainda possível propô-la a um mundo que fala
somente de auto-realização, auto-afirmação? A negação nunca é fim em si
mesmo, nem um ideal em si. A coisa mais importante é aquela positiva: Se queres seguir-me; É
o seguir Cristo, possuir Cristo. Dizer não a si mesmo é o meio; dizer
sim a Cristo é o fim. Paulo a apresenta como uma espécie de lei do
espírito: “Se com a ajuda do Espírito fazes morrer as obras da carne,
vivereis” (Rom 8, 13). Isso, como se pode ver, é um morrer para viver; é
o oposto da visão filosófica que diz que a vida humana é “um viver para
morrer” (Heidegger).
Trata-se de saber qual fundamento
queremos dar à nossa existência: se o nosso “eu” ou “Cristo”; na
linguagem de Paulo, se queremos viver “para nós mesmos”, ou “para o
Senhor” (cf. 2 Coríntios 5, 15, Rom 14 , 7-8). Viver “para si mesmos”
significa viver para a própria comodidade, a própria glória, o próprio
progresso; viver “para o Senhor” significa recolocar sempre em primeiro
lugar, nas nossas intenções, a glória de Cristo, os interesses do Reino e
da Igreja. Cada “não”, pequeno ou grande, falado a si mesmo por amor, é
um sim dito a Cristo.
Somente deve-se evitar a ilusão. Não se
trata de saber tudo sobre a negação cristã, sua beleza e necessidade;
trata-se de passar ao ato, de praticá-la. Um grande mestre de espírito
da antiguidade dizia: “É possível despedaçar dez vezes a própria vontade
em um brevíssimo tempo; e vos digo como. A pessoa está passeando e vê
algo; o seu pensamento lhe diz: “Olha lá”, mas ele responde ao seu
pensamento: “Não, não olho”, e despedaça assim a própria vontade. Depois
encontra outros que estão falando (leia falando mal de alguém) e o seu
pensamento lhe diz: “Fale’ também você aquilo que sabe”, e despedaça a
sua vontade calando”[11].
Este antigo Padre traz, como se vê,
exemplos tirados todos da vida monástica. Mas eles podem ser atualizados
e adaptados facilmente para a vida de cada um, clérigos e leigos.
Encontros, se não com um leproso como Francisco, com um pobre que você
sabe que vai lhe pedir algo; o seu homem velho te empurra a passar do
lado oposto do caminho, e você pelo contrário, se faz violência e lhe
vai ao encontro, talvez presenteando-lhe somente com uma saudação e um
sorriso, se não pode fazer outra coisa. Oferecem a você a ocasião para
um lucro ilícito: e você diz não e negou a si mesmo. Foi contestado em
uma ideia; toca o ponto sensível, gostaria de responder com força, cala e
espera: despedaçou o seu eu. Acredita ter sido passado pra trás, um
tratamento, ou um destino não adequado aos seus merecimentos: gostaria
de contar para todos, fechando-se em um silêncio cheio de tácita
reprovação. Diz não, quebra o silêncio, sorri e reabre o diálogo. Negou a
si mesmo e salvou a caridade. E assim por diante. Um sinal que prova
uma boa luta contra o próprio eu, é a capacidade ou ao menos o esforço
de alegrar-se pelo bem feito ou a promoção recebida de outro, como se
acontecesse consigo mesmo:
“Bem aventurado aquele servo –
escreve Francisco em uma das suas Admoestações – que não se orgulha pelo
bem que o Senhor diz e obra por meio dele, mas sim pelo bem que diz e
obra por meio de outro”.
Uma meta difícil (eu não falo certamente
como quem já a alcançou!), mas a história de Francisco, nos mostra o
que pode nascer de uma negação de si feita em resposta à graça. A meta
final é poder dizer com Paulo e com Ele: “Não mais eu que vivo, Cristo
vive em mim”. E haverá alegria e paz plenas, já sobre esta terra.
Francisco, em sua “perfeita alegria”, é um exemplo vivo da “alegria que
vem do Evangelho,” do Evangelii gaudium!
Traduzido do original italiano por Thácio Siqueira
[1] Y.Congar, Vera e falsa riforma nella Chiesa,Milano Jaka Book, 1972, p. 194.
[2] Celano, Vita Prima, VII, 17 (FF 348).
[3] Cf. Celano, Vita Seconda, V, 9 (FF 592)
[4] Cf. Celano, Vita prima, III, 7 (FF, 331).
[5] Bihhmeyer – Tuckle, II, p. 239.
[6] Legenda dei tre compagni VIII (FF 1431 s.).
[7] FF, 358; 1436 s.; 1508.
[8] Legenda perugina 114 (FF 1673).
[9] Regola Bollata, cap. II.
[10] Sobre as condições da verdadeira reforma veja Congar, ob. cit. pp. 177 ss.
[11] Doroteo di Gaza, Opere spirituali, I,20 (SCH 92,p.177).
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