Palavras assustadoras? Faz parte de nossa fé cristã a certeza de que o
Senhor virá em sua glória no final dos tempos. Deus será tudo em todos
(1 Cor 15, 28)! Palavras consoladoras, que nos estimulam na caminhada,
fazendo toda a nossa parte para esperar e apressar a vinda do dia de
Deus. Esperá-lo nos faz clamar cada dia com a Igreja "Vinde, Senhor
Jesus"! Esperá-lo nos conduz à mesa Eucarística, pois todas as vezes que
se celebra a Santa Missa o Único e Eterno Sacrifício de Cristo se faz
presente e sua plenitude vem até nós. O Céu vem até nós! A Eucaristia de
cada dia resume a história da humanidade e nos faz presente o seu
sentido de encontro com Deus e uns com os outros. Levar em conta o dia
do Senhor é aproveitar todas as oportunidades para viver as realidades
da eternidade, amando a Deus e ao próximo, com intensidade. Não vivemos
no medo, mas na confiança e na certeza dos últimos tempos, inaugurados
com a morte e ressurreição de Cristo. Não há, pois tempo a perder. Quem
nasce hoje seja conduzido a viver olhando para o alto e para frente, sem
rastejar na poeira do pecado. Ao invés de ficar preocupados com o fim
do mundo, trazer depressa para cá as realidades da eternidade, pois
sabemos que só o amor de caridade ultrapassará os umbrais da eternidade!
O que pode assustar, torna-se convite a viver bem! Nenhum receio de
repetir: "Vinde, Senhor Jesus"!
O fogo queima e purifica. A esta altura do ano, quando a Igreja nos
fala das últimas e definitivas realidades, é hora de rever a nossa vida e
fazer a faxina nos recantos mais íntimos de nossa casa interior. Há
muita velharia a ser queimada! Há sentimentos de ódio, inveja ou ciúme a
serem absolutamente descartados, jogados fora, mesmo. A proposta da
Igreja é uma corajosa revisão de vida, sem medo de encarar os recônditos
de nosso coração, onde se aninham maldades que nos corroem por dentro.
Os soberbos e os ímpios a serem queimados estão dentro de nós. Não é o
caso de buscar eventuais pessoas que praticam o mal para condená-las,
mas condenar a impiedade que está em nosso íntimo, deixando florescer o
que é bom! Primeira decisão: corajosa revisão de vida e fogueira
interior na qual se queime o que não presta!
O sol da justiça brilhe para nós! Toda palavra que sai da boca de Deus,
todas as experiências de sua graça que age em nós e em torno a nós,
toda a força do Evangelho proclamado, o testemunho das pessoas que nos
edificam! Deixar-se iluminar pelo sol da justiça é ato de inteligência,
pura sabedoria! A salvação de Deus quer entrar pelas frestas abertas nas
janelas de nossas almas, como o sol da manhã que irrompe glorioso!
Quando fazemos um balanço de nossa vida e dos contatos que temos com as
pessoas, não é difícil perceber que a luz é maior do que as trevas.
Estamos diante de uma luta desigual, na qual o amor de Deus e sua
salvação valem mais do que a iniquidade! Na vida cristã, não cabe o
pessimismo derrotista, que vê maldade e más intenções em cada gesto e
cada olhar, mas a capacidade de ver e valorizar o bem. Nasce daí uma
nova disposição para espalhar este bem. Brilhe o sol da justiça no
cumprimento alegre às pessoas que encontramos ou na valorização dos
pequenos gestos de quem nos cerca. Ilumine os ambientes a luz que se
acende quando espalhamos boas notícias e falamos bem dos outros, o que
serve para esconjurar os defeitos e vícios eventualmente existentes!
“Assim também brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que vejam as
vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus.” (Mt 5,16).
Comentando esta palavra do Evangelho, Chiara Lubich, fundadora do
Movimento dos Focolares, assim se expressava: "A luz se manifesta nas
boas obras. Ela brilha através das boas obras praticadas pelos cristãos.
Você me dirá: mas não são apenas os cristãos os que praticam boas
obras. Muita gente colabora com o progresso, constrói casas, promove a
justiça. Tem razão. Inclusive o cristão certamente faz, e deve fazer
tudo isso, mas não é unicamente esta a sua função específica. Ele deve
realizar boas obras com um espírito novo, aquele espírito que faz com
que não seja mais ele a viver, mas Cristo nele. Com efeito, o
evangelista Mateus não se refere apenas a atos de caridade isolados,
como visitar os presos, vestir os nus ou cumprir todas as outras obras
de misericórdia, atualizadas de acordo com as exigências de hoje, mas
refere-se à adesão total do cristão à vontade de Deus, de modo a fazer
de toda a sua vida uma boa obra. Se o cristão age assim, ele é
transparente e os elogios que receber por suas ações não serão
atribuídos a ele, mas a Cristo nele; assim Deus se fará presente no
mundo por meio dele. A tarefa do cristão, portanto, é deixar
transparecer essa luz que habita nele, é ser o sinal da presença de Deus
entre os homens" (Chiara Lubich, Palavra de Vida de Agosto de 1979).
"O Fogo e o Sol"
Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará
Assessor Eclesiástico da RCCBRASIL
Arcebispo de Belém do Pará
Assessor Eclesiástico da RCCBRASIL
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