Reinaldo Azevedo
Estava programado para esta quinta uma
manifestação de militantes de esquerda no Congresso Nacional em defesa
do controle da mídia. Nem sei se aconteceu. Acompanhei depois o
julgamento do mensalão, fiquei estudando o caso da saúde, li sobre as
barbaridades na Síria e deixei de lado os pterodáctilos. Escrevi no
começo da tarde um post a
respeito. Perguntei, então, por que as esquerdas querem tanto controlar
essa tal mídia se controlada ela já está. E citei o caso da Globo.
Indaguei se havia como a emissora ser mais de esquerda — em qualquer
área que se escolha, incluindo as novelas.
Vi há pouco uma cena chocante de “Amor à vida”.
Está inaugurado o merchandising militante pró-aborto. Nunca vi nada
parecido. Como há no enredo um hospital, lugar preferencial paras as
maldades de Félix, o vilão que caiu no gosto popular, eis que, do nada,
chega uma paciente com hemorragia. Mobiliza-se o socorro de emergência.
Um médico então diz: “Eu não posso atender!”
A equipe tenta salvar a moça, mas em
vão. Ela morre. E começa a discurseira. O médico mais velho diz que ela
fez um aborto ilegal, que o procedimento foi malfeito e que a mulher
morreu por isso. Vai mais longe: “Infelizmente, essa é uma das principais causas da morte de mulheres no Brasil”. É mentira! É mentira escandalosa! Já chego lá. A enfermeira, com o cadáver ainda à sua frente, quentinho, dispara: “Morte de mulheres pobres, né? Porque as ricas fazem aborto em segurança” (se
a fala não é exata, foi algo ainda mais primitivo). Foi mais longe,
dizendo que essas mulheres também são vítimas da miséria e da
ignorância. Ainda era pouco. O médico mais velho vai, então, procurar o
outro, que havia dito que não poderia fazer o atendimento.
— Por que você não quis atender a paciente?
— Porque ela fez aborto. Isso é contra as leis divinas.
O chefe lhe dá uma carraspana. O rapaz, então, reproduzindo uma caricatura do discurso religioso, emenda:
— Me recuso a atender uma pecadora!
— Você está fora do corpo de residentes deste hospital!
— Porque ela fez aborto. Isso é contra as leis divinas.
O chefe lhe dá uma carraspana. O rapaz, então, reproduzindo uma caricatura do discurso religioso, emenda:
— Me recuso a atender uma pecadora!
— Você está fora do corpo de residentes deste hospital!
Vergonha
Fiquei com vergonha de assistir à
cena. Prometi a mim mesmo que não vejo a novela nunca mais, nem
excepcionalmente, como hoje. Como vocês sabem, de hábito, estou
trabalhando nesse horário. E nunca mais verei não porque ofende as
minhas convicções, mas porque ofende a minha inteligência. O
merchandising social — a morte de fetos se insere nessa categoria? — tem
um compromisso com a verdade.
Principal causa de mortes?
Eu não sei, ou sei, por que os abortistas precisam mentir tanto. Qual é o problema dessa gente com os fatos? Até
outro dia, os mentirosos contumazes diziam que 200 mil mulheres
morriam, por ano, vitimas de aborto. Eleonora Menicucci, a abortista e
ex-aborteira que é ministra das Mulheres, chegou a levar esses números a
uma reunião da ONU. Em fevereiro de 2012, fiz uma conta com os dados disponíveis, todos oficiais.
Acompanhem.
Em 2010, o Censo do IBGE passou a
investigar a ocorrência de óbitos de pessoas que haviam residido como
moradoras no domicílio pesquisado. ATENÇÃO! Entre agosto de 2009 e julho
de 2010, foram contabilizadas 1.034.418 mortes, sendo 591.252 homens
(57,2%) e 443.166 mulheres (42,8%). Houve, pois, 133,4 mortes de homens
para cada grupo de 100 óbitos de mulheres.
Vocês começam a se dar conta da
estupidez fantasiosa daquele número? Segundo o Mapa da Violência, dos
49.932 homicídios havidos no país em 2010, 4.273 eram mulheres. Muito
bem: dados oficiais demonstram que as doenças circulatórias respondem
por 27,9% das mortes no Brasil — 123.643 mulheres. Em seguida, vem o
câncer, com 13,7% (no caso das mulheres, 60.713). Adiante. Em 2009,
morreram no trânsito 37.594 brasileiros — 6.496 eram mulheres. As
doenças do aparelho respiratório matam 9,3% dos brasileiros — 41.214
mulheres. As infecciosas e parasitárias levam outros 4,7% (20.828). A
lista seria extensa.
Agora eu os convido a um exercício
aritmético elementar. Peguemos aquele grupo de 443.166 óbitos de
mulheres e subtraiamos as que morreram assassinadas, de doenças
circulatórias, câncer, acidentes de trânsito, doenças do aparelho
respiratório, infecções (e olhem que não esgotei as causas). Chegamos a
este número: 185.999!!!
Já começou a faltar mulher. Ora, para
que pudessem morrer 200 mil mulheres vítimas de abortos de risco, é
forçoso reconhecer, então, que essas mortes teriam se dado na chamada
idade reprodutiva — entre 15 e 49 anos. É mesmo? Ocorre que, segundo o
IBGE, 43,9% dos óbitos são de idosos, e 3,4% de crianças com menos de um
ano. Então vejam que fabuloso:
Total de mortes de mulheres – 443.166
Idosas mortas – 194.549
Meninas mortas com menos de um ano – 15.067
Sobra – 233.550
Total de mortes de mulheres – 443.166
Idosas mortas – 194.549
Meninas mortas com menos de um ano – 15.067
Sobra – 233.550
Dessas, segundo os delirantes de então,
200 mil teriam morrido em decorrência do aborto — e necessariamente na
faixa dos 15 aos 49 anos!!!
Cessou a mentira
Quando desmoralizei, COM NÚMEROS
OFICIAIS, a mentira das 200 mil mortes, essa bobagem parou de ser
veiculada no país. O doutor que disse aquela besteira na novela, fosse
de verdade, seria um mentiroso, um mistificador, um vigarista. Vejam
acima as principais causas da morte de mulheres no Brasil, ricas ou
pobres. Se a enfermeira histérica faz seu trabalho tão bem quanto pensa,
coitados dos pacientes!
Os números reais
O número de mortes maternas, no Brasil, está abaixo de 2.000 por ano!
Atenção! Estou me referindo à morte de mulheres em decorrência da
gravidez. O aborto, segundo dados do DataSUS, corresponde a 5% dessas
mortes, entenderam? Ocorre que esse número inclui tanto o aborto
espontâneo como o provocado. Assim:
a: o aborto não é a principal causa da morte de mulheres;
b: o aborto não é nem mesmo a principal causa de morte materna.
a: o aborto não é a principal causa da morte de mulheres;
b: o aborto não é nem mesmo a principal causa de morte materna.
Não gosto de merchandising, de nenhuma
natureza, comercial, social ou, como é o caso, ideológico. Repugna-me a
ideia de que se deve pegar o telespectador distraído para, então,
“pimba!”. Sabem por que jamais defenderia a sua proibição? Porque a
engenharia legal para isso resultaria, com certeza, em algo ainda pior.
Então que permaneça o mal menor — mas que chamo de “mal” ainda assim.
Demonização da religião
Aquele médico que se negou a atender a
paciente que chegou morrendo, exibido na novela, não existe. Criou-se
uma caricatura para, no fundo, demonizar o discurso religioso. Imaginem
se alguém formado em medicina se referiria a uma paciente terminal como
“pecadora”; se diria a seu chefe que o aborto atenta “contra as leis
divinas”. Usa-se, então, o
discurso ridículo de um médico para ridicularizar os que se opõem ao
aborto por motivos religiosos, o que é um direito, no país em que há
liberdade de crença.
Há
um outro nível de falsificação nessa história. Existem médicos às
pencas que são agnósticos, mas que se recusam a praticar o aborto mesmo
nos casos em que ele é legalmente permitido. O Código de Ética Médica
lhes assegura o direito de alegar objeção de consciência. Nesse caso,
sua obrigação é informar a paciente dos seus direitos e encaminhá-la
para um colega. “E no caso de não haver quem faça, num rincão do Brasil
qualquer”. Assegurado um direito a ser conferido pelo poder público, o
Estado tem a obrigação de prover os meios. Que se crie, sei lá, uma
central nacional, com um número de telefone, para ocorrências dessa
natureza e garantia de atendimento.
Uma
coisa é certa: obrigar um médico a fazer um procedimento que viola a
sua consciência seria um absurdo. Mas há uma pressão nesse sentido. Que
eu saiba, nem os cubanos poderão se encarregar da tarefa…
A novela entrou de forma grosseira nessa questão. “Páginas da
Vida” faz proselitismo em favor da adoção de crianças por gays e levou
ao ar, nesta quinta, essa cena patética, mentirosa e patrulheira, sobre
aborto. No Globo
Repórter, a gente aprendeu que só uma família deve ser chata: a que tem
papai e mamãe. Dia desses, um programa discutia a descriminação das
drogas na base de quatro (a favor) a um (contra). Certamente não
reproduz os percentuais que estão na sociedade.
E
os pterodáctilos ainda querem fazer o controle social da mídia, muito
especialmente da Globo, acusando-a, imaginem só!, de ser conservadora,
reacionária. Pois é! Com todo o suposto conservadorismo e reacionarismo,
um “médico” foi demitido. Deus nos livre da versão progressista. O
coitado teria sido fuzilado em nome do povo e da vida.
Pode não parecer, eu sei. Mas o que se
viu em “Páginas da Vida” foi uma manifestação absurda de intolerância.
Intolerância com a divergência (os que se opõem ao aborto — e que,
curiosamente, são maioria absoluta no Brasil) e intolerância religiosa,
reduzida a uma patética caricatura. E me lembrei de uma antiga frase
minha: “Deus nos livre da intolerância dos tolerantes! Sabem ser
obscurantistas em nome das luzes”.
Finalmente
A militância pró-aborto não tente
tomar de assalto a área de comentários. Será inútil. E não porque eu me
oponha à descriminação, mas porque este texto não propõe um debate de
mérito. Admito, sim, uma contestação: quero que provem que os dados com
os quais trabalho são falsos. Mas têm de provar. Não basta apenas
repudiá-los porque ele desmonta as teses pró-aborto. Eu estou é
contestando uma mentira transmitida a milhões de brasileiros.
Por Reinaldo Azevedo
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