A
festa de São José, operário, é uma boa ocasião para pensarmos na nossa
obrigação de continuar a obra da criação e de a realizar bem. É o que se
costuma dizer: um trabalho bem feito.
No
fim de cada dia da criação, diz o autor sagrado que Deus contemplava o
que tinha feito e achava que tudo era muito bom, que tudo era belo. No
sétimo dia Deus descansou e confiou ao homem a tarefa de continuar o seu
trabalho. «E descansou o Senhor no sétimo dia e o homem continuou a sua
tarefa». Deus criou as coisas cheias de potencialidades, de
possibilidades de desenvolvimento. Mas não quis deixá-las terminadas,
para que o homem as acabasse. Deus não tem inveja do homem. Prometeu
teve que roubar o fogo dos deuses, dizer alguns que desconhecem as
Escrituras. Pelo contrário, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança
e chamou-o a continuar a criação. Como diz o Vaticano II, «a mensagem
cristã não retira os homens da construção do mundo, nem nos leva a
despreocuparmo-nos do bem do nosso semelhante, antes nos impõe esta
obrigação como um dever».
No
texto sagrado diz Deus aos primeiro país: «Submetei a terra e dominai
sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre os rebanhos e sobre
tudo quanto vive e se move sobre a terra». Deus entregou tudo ao homem
para seu alimento e serviço. Logo de seguida Deus pede ao homem que dê
nome a todos as criaturas, o que significa um modo de tomar posse sobre
elas. Deus pede, assim, ao homem uma colaboração assídua e consciente na
criação.
Há
aqui uma aplicação ascética muito clara. O homem deve dominar as
criaturas e não ser dominado por elas. Sempre que o homem se submete às
coisas e se torna seu escravo, já não é o rei da criação, afastando-se
do plano de Deus. Mas é preciso prestar muita atenção. Deus pede ao
homem que domine e submeta as criaturas, mas não os outros homens. Todo o
homem está feito à imagem e semelhança de Deus. Quando um homem submete
ou escraviza outro homem, também se opõe ao plano de Deus. São José,
operário, recorda-nos, sem distinção, a dignidade de todo o homem que
colabora na obra da criação.
Colaborar
com Deus, e colaborar bem, para não deturpar a beleza da obra de Deus.
Paulo VI falou uma vez aos varredores das ruas de Roma. Louvou o seu
trabalho e disse-lhes que as belezas de Roma brilhavam mais se eles
realizassem bem o seu trabalho. «Se um homem é varredor, terá que varrer
as r4as como Miguel Ângelo quando pintava, como Beethoven quando
compunha, como Shakespeare quando escrevia», diz um autor moderno.
Deve-se
trabalhar com amor. «Trabalhar com amor é tecer a teia com fios do
próprio coração, como se o ser amado fosse usar, como prenda, esse
vestido É lançar sementes de ternura, e colher com alegria, como se o
ser amado fosse comer esse fruto. E impregnar tudo de amor» (K. Gibran).
A
5 de Janeiro de 1964, em Nazaré, Paulo VI exortava a aprender a lição
do trabalho, a tomar consciência da sua dignidade. E apontava a todos
para «o grande modelo, o irmão divino, o defensor de todas as causas
justas, isto é: Cristo, Nosso Senhor», o filho do carpinteiro, como era
conhecido Jesus. E com o filho, o pai, São José, operário. A obra bem
feita. Alguém pode imaginar São José aldrabando umas peças? Faria coisas
simples, mas poria toda a sua alma em fazer as coisas bem feitas. Não
faria coisas extraordinárias, mas de certeza faria as coisas habituais
de forma extraordinária.
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