Dom Murilo S.R. Krieger
Arcebispo de Salvador (BA)
Muitos
sonham com uma vida sem leis nem regras, sem proibições ou ordens, uma
vida totalmente livre de qualquer obrigação ou norma. Para esses, também
a religião deveria ser livre de mandamentos, pois julgam que estes
seriam resquícios de uma época marcada pelo atraso cultural, pelo medo e
por uma visão infantil da vida. Tais sonhadores de uma fé sem dogmas,
de um cristianismo sem leis, e de um Cristo sem cruz, perguntam:
"Afinal, Jesus não veio nos libertar de toda escravidão ou opressão? Não
é ele o libertador?"
É
o libertador, sim, mas nem por isso deixou de falar de sacrifício
("Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo"), de porta estreita (só
passa por ela quem se desapega de si mesmo e do pecado) e de doação
("Amarás ao Senhor teu Deus de todo o coração e ao próximo como a ti
mesmo") como norma de comportamento. Além disso, deixou claro que não
veio abolir a Lei ou os Profetas: "Não vim para abolir, mas para
cumprir" (Mt 5,17).
Precisamos
compreender que os mandamentos não são simplesmente um peso
desagradável que, quanto antes, devemos tirar de nossos ombros. Jesus
veio nos ensinar o sentido das leis e nos mostrar que, diante do plano
de amor de seu Pai, não basta uma obediência externa e formalista. Ser
cristão é muito mais do que seguir uma série de leis, normas e
prescrições; é seguir uma pessoa, isto é, o próprio Jesus Cristo,
fazendo de suas palavras e de seu comportamento o fundamento de nossa
vida.
A
liberdade nos dá a possibilidade e a responsabilidade de escolher entre
o bem e o mal. Os mandamentos nos ajudam a escolher o bem. Um pai/ uma
mãe que ama seu filho, sua filha, não quer que eles sofram, se machuquem
ou se prejudiquem de algum modo. Por isso, antecipa-se a possíveis
problemas, prevenindo-os e orientando seus filhos. Nascem, como fruto
dessa preocupação, constantes advertências: "Não ande com más
companhias! Estude! Não corra depois do almoço!" Os filhos são livres.
Poderão aceitar ou não as ordens do pai/ da mãe. Aceitando-as, terão que
se privar de certas coisas que lhe parecem ser muito agradáveis e
desejáveis. Com o tempo, aprenderão que, ao renunciar a elas,
livraram-se de inúmeros problemas.
Poderá
acontecer também que os filhos se sintam por demais tolhidos e se
rebelem contra as advertências paternas. Desejosos de escolher seu
próprio caminho, e não aceitando "perder a liberdade", começam a fazer o
que querem. Perguntemo-nos - sabendo antecipadamente a resposta:
passarão a ser, então, realmente, livres? Encontrarão a realização
desejada?
Segundo
a visão cristã, a lei expressa o projeto de Deus que é Pai e que quer o
melhor para seus filhos. Por isso mesmo, antes de expressá-la por
palavras, o Criador as escreveu na intimidade do coração de seus filhos e
filhas. Descobrir, pois, o valor dos mandamentos, é um gesto de
sabedoria; interpretá-las à luz do amor, é uma graça. Com o tempo
perceberemos que os mandamentos encerram um projeto de vida e são fonte
de paz para quem os assume.
Jesus
nos ensinou a não sermos escravos da lei. Uma pessoa escraviza-se a ela
quando fica somente no plano da obediência, sem amor, ou quando se
prende tão somente à letra do que é prescrito. Tomemos, a título de
exemplo disso, o 5º mandamento, que diz para "não matar". Ele nos proíbe
tirar a própria vida e a vida de qualquer pessoa. Mas vai além: nos
ensina a cuidar da saúde, a promover a vida daqueles que, sozinhos, não
conseguem superar suas limitações, a tomar a defesa dos desprotegidos, a
lutar contra a poluição, a batalhar em favor da ecologia etc. Também os
demais mandamentos contêm todo um programa de vida. Seu conjunto nos
apresenta um caminho da realização pessoal e comunitária. Por não
acreditar nisso, nossos contemporâneos, que tanto desejam ser livres,
vivem presos às suas próprias inquietações e escravidões. Quem não segue
os mandamentos, prende-se a ídolos.
Em
síntese: os mandamentos não são placas de proibições, mas setas de
indicação. Segui-los é fazer uma experiência de amor e de liberdade.
FONTE: Arquidiocese de São Salvador da Bahia/BA
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