Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo (SP)
No
dia 11 de outubro passado, o papa Bento XVI abriu um "Ano da Fé" para
toda a Igreja Católica. A iniciativa coincide com o 50.º aniversário da
abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, levada a efeito a seu tempo
pelo papa João XXIII. São objetivos do "Ano da Fé" o reencontro dos
fiéis com as raízes e as razões da fé da Igreja, sua melhor compreensão e
um novo impulso na transmissão do patrimônio da fé, que os cristãos
vivem e partilham com a humanidade há 20 séculos.
Pareceria
que não faz mais sentido crer em Deus em nossos dias, sobretudo diante
da afirmação da racionalidade científica e tecnológica. Há ideias bem
diversas sobre a fé, nem sempre compatíveis entre si: há uma fé natural,
que se confunde com um desejo intenso, há fé nos projetos humanos e até
fé na ciência e na tecnologia. Sem entrar no mérito de cada uma dessas
formas de uso do conceito "fé", e respeitando a forma como cada um crê
ou não crê, desejo tratar aqui da fé sobrenatural em Deus e daquilo que
decorre dessa fé, no sentido cristão de crer - mais exatamente, da
Igreja Católica, à qual me dedico.
As
perguntas que o próprio papa Bento XVI fez na abertura do "Ano da Fé",
provavelmente, são as mesmas que mais de um leitor já se fez alguma vez:
ainda tem sentido crer, quando a ciência e a técnica conferem ao homem
uma sensação próxima da onipotência? O homem ainda precisa da fé? A fé
não humilha a razão? O que significa crer?
Razão
e fé, ciência e religião foram e são contrapostas com frequência, como
se fossem inconciliáveis. Sobre esse tema o papa João Paulo II escreveu a
carta encíclica Fides et Ratio (A Fé e a Razão), de grande
profundidade, que permanece plenamente atual. Razão e fé não precisam
nem devem, necessariamente, ser contrapostas. São duas vias de acesso à
única realidade, percebida de maneiras diferentes; abordagens diversas
quanto ao método e complementares quanto ao seu objeto, que é a verdade.
O
ato de crer, no sentido cristão, vai além da mera adesão intelectual a
uma verdade, ou a um ideal ético elevado. Tampouco se restringe à
afirmação de doutrinas sobre Deus ou sobre realidades sobrenaturais. A
fé é um dom de Deus, que se manifesta ao homem e o atrai a si, dando-lhe
a capacidade de entrar em sintonia e diálogo com Ele. Ao mesmo tempo, é
um ato que envolve plenamente o homem e o faz reconhecer os motivos
para crer e a razoabilidade da adesão livre a uma realidade que se lhe
apresenta luminosa e forte. A fé, nesse sentido, não é um ato irracional
nem contrário à razão; nem puro sentimento, podendo ser compreendida e
explicitada com argumentos, embora não seja fruto desses argumentos.
Nossa
fé está ligada a fatos e eventos, mediante os quais Deus envolve o
homem e se manifesta a ele; ao longo da História, de diversos modos Ele
veio ao encontro do homem, sobretudo por Jesus Cristo. A fé é, portanto,
a resposta livre e pessoal do homem a Deus; por ela nos abrimos para
esse encontro misterioso e aderimos a Deus, que é mais que uma verdade
intelectual, uma energia ou mesmo o grande caos. Ele se dá a conhecer
como um "tu" pessoal, o grande Tu, em referência ao qual tudo passa a
ter uma compreensão nova. De fato, a fé, no sentido cristão, oferece uma
percepção própria da realidade, à luz de Deus.
O
ato de fé é mais que um "crer em qualquer coisa"; é, acima de tudo,
abrir-se a Deus e crer nele e, como consequência, naquilo que decorre
desse ato de fé primeiro; por isso, a fé se traduz numa relação pessoal
com esse grande Tu, que Jesus Cristo ensinou a reconhecer como um pai e a
ter com Ele uma relação filial. Apesar de parecer a suprema ousadia da
parte do homem, isso corresponde, de fato, ao anseio mais profundo do
seu coração, que consiste em relacionar-se de maneira próxima e familiar
com Deus.
No
ato de crer, a dignidade do homem não é anulada, mas supera-se a
frequente tentação de contrapor Deus ao homem. Deus não é a suprema
ameaça à autonomia do homem, nem representa o grande obstáculo para que
ele seja feliz. O ato de fé em Deus, no sentido exposto, proporciona ao
homem a máxima possibilidade de compreensão dos mistérios de sua própria
existência e de seu ser.
De
fato, por muito que explique o mundo e a si mesmo pela ciência e pela
filosofia, o homem não se dá por satisfeito, nem pode abafar algumas
questões de fundo, que permanecem sem resposta: quem somos? Por que
somos capazes de pensar, querer, decidir? Que significa essa inquietude,
essa espécie de saudade interior, que nos impele a procurar a
felicidade, o amor, a liberdade, a vida, algo que nos faz falta, como se
um objetivo nos atraísse de maneira sutil, mas irresistível? Como
orientar nossas escolhas livres para um êxito bom e feliz na vida? E a
morte? Haverá algo além desta vida?
Responder
de maneira peremptória a essas interrogações com um seco "não me
interessa" seria levar pouco a sério o próprio mistério humano e fazer
um ato de fé negativo, da mesma forma como faz um ato de fé positivo
quem crê em Deus e, à sua luz, procura compreender melhor a si mesmo e
ao mundo. E a contraposição inconciliável entre fé e razão, entre
ciência e religião pode ser cômoda e simplista, levando a reprimir as
interrogações humanas mais angustiantes e a estreitar o horizonte da
compreensão do mundo e do ser humano; seria diminuir a própria dignidade
homem.
Nossa
inteligência é "capaz de Deus" e não está fechada para Ele. Crer é um
ato humano livre por excelência, mediante o qual nos abrimos ao supremo
Tu, ao Deus pessoal, e podemos alcançar uma certeza interior não menos
importante do que aquela que nos vem das ciências exatas ou naturais.
Reduzir nossa capacidade racional às certezas verificáveis seria
diminuir essa mesma capacidade.
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