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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Conhece-te a Ti Mesmo


 
                Hélio C. Albuquerque.
                Doutor em Teologia. PUC Rio.
                Autor do livro "A revelação judaico-cristã, nas origens e hoje"

                A antiga expressão "Contraria iuxta se pósita magis lucescunt", que quer dizer coisas opostas colocadas juntas refulgem com maior brilho faz compreender a beleza da santidade em relação ao pecado, a grandeza da graça em oposição à mi´seria moral do homem. Assim se opõem a violência à paciência, a vingança ao perdão, a piedade à impiedade.
                Se se pudesse conhecer intimamente a história íntima de cada santo veriam-se as dificuldades, as lutas sustentadas na escolha do bem, da virtude, do amor.
                Os santos foram formados numa estrutura social que pouco favorece a vida virtuosa. As dificuldades não estão apenas fora de nós mas dentro de nós, na Família, no ambiente em que se vive (cf. Mt 10, 36; Mq 7, 6).
As dificuldades aumentam quando o homem encontra-se sob o domínio do pecado antes de receber a graça de Deus (cf. Rm 7, 15-18).

                A ruptura inicial do homem com Deus, fonte de toda vida e origem de toda santidade pesa sobre a humanidade (cf. Gn 2, 25; 3, 10), não de forma banal. O pecado corrompeu o espírito do homem, de modo que, dividido em si, desolidariza-se Adão de Eva, acusando-a (cf. Gn 3, 12) e a ruptura estende-se aos filhos de Adão: o assassinato de Abel (cf. Gn 4, 8) e a corrupção de toda a humanidade (cf. Gn 6, 5).
                Nascemos todos em um plano não-horizontal mas, inclinado. No fundo despe plano está o mal e, bem acima, está o bem. É mais fácil descer que subir. De fato, a virtude exige esforço, energia, o vício não.
Nascemos com uma natureza enferma. Nossos genitores nos transmitiram um mal hereditário: o micróbio de uma profunda astenia espiritual.
                Alguma luz brilha nas trevas daquela noite escura. O piedoso Abel (cf. Gn 4, 4) e o bom Noé que encontrou graça aos olhos do Senhor (cf. Gn 6, 8). O patriarca Henoc que andou com Deus e Deus o arrebatou (cf. Gn 5, 24) por sua piedade (cf. Eclo 44, 16).
                O Apóstolo dos Gentios analisa os desvios morais da Humanidade entregue ao pecado (cf. Rm 1, 18-32) que provoca a ira do Senhor e Deus (cf. Rm 1, 18). Observa que a terra está cheia de violência por causa dos homens (cf. Gn 6, 13): destruição brutal, estupros, violação da justiça, atos incontidos. Lamec mata um homem por uma ferida (cf. Gn 4, 23); Simeão e Levi vingam a irmã Dinah violentada, com cutelos (cf. Gn 34) que seu pai Jacó chamou instrumentos de violência (cf. Gn 49, 5). Massacres, perseguições, matanças de inocentes como a do ímpio rei Acab que assassina Nabot para apoderar-se de sua vinha (cf. 1Rs 21, 8-16).
                Os profetas lamentam o estado de violência em que o povo mergulhou (cf. Am 3,10; Jr 6, 7; 20, 8; Is 60, 18), e apelam a Javé que é o único a poder remediar esse estado de injustiça (cf, Hab 1, 3).
                Progressivamente o Senhor vai educando o homem e reconduzindo-o à razão, visto que, a violência obscurece a razão. É a força de quem não tem razão. Por isso prescreve-lhe a lei de Talião (cf. Ex 21, 24) que é um grande progresso em relação aos tempos de Lamec (cf. Gn 4, 15.24).
                O castigo de um pecado coletivo (cf. Gn 11, 1-8) encontra sua resposta na obra do Redentor (cf. Jo 11, 52) e no milagre de Pentecostes (cf. At 2, 5-12).
                Deus tem caminhos misteriosos que escapam à compreensão humana (cf. Is 55, 8). Uma coisa é certa, quis que o ser humano fosse livre mesmo quando abusa de sua liberdade e escolhe contra o seu Criador.
                Longe de coagi-lo Deus espera que livremente o homem volte para Ele pelo conhecimento do amor (cf. CIC, n, 356).

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