Hélio C. Albuquerque.
Doutor em Teologia. PUC Rio.
Autor do livro "A revelação judaico-cristã, nas origens e hoje"
A
antiga expressão "Contraria iuxta se pósita magis lucescunt", que quer
dizer coisas opostas colocadas juntas refulgem com maior brilho faz
compreender a beleza da santidade em relação ao pecado, a grandeza da
graça em oposição à mi´seria moral do homem. Assim se opõem a violência à
paciência, a vingança ao perdão, a piedade à impiedade.
Se
se pudesse conhecer intimamente a história íntima de cada santo
veriam-se as dificuldades, as lutas sustentadas na escolha do bem, da
virtude, do amor.
Os
santos foram formados numa estrutura social que pouco favorece a vida
virtuosa. As dificuldades não estão apenas fora de nós mas dentro de
nós, na Família, no ambiente em que se vive (cf. Mt 10, 36; Mq 7, 6).
As dificuldades aumentam quando o homem encontra-se sob o domínio do pecado antes de receber a graça de Deus (cf. Rm 7, 15-18).
A
ruptura inicial do homem com Deus, fonte de toda vida e origem de toda
santidade pesa sobre a humanidade (cf. Gn 2, 25; 3, 10), não de forma
banal. O pecado corrompeu o espírito do homem, de modo que, dividido em
si, desolidariza-se Adão de Eva, acusando-a (cf. Gn 3, 12) e a ruptura
estende-se aos filhos de Adão: o assassinato de Abel (cf. Gn 4, 8) e a
corrupção de toda a humanidade (cf. Gn 6, 5).
Nascemos
todos em um plano não-horizontal mas, inclinado. No fundo despe plano
está o mal e, bem acima, está o bem. É mais fácil descer que subir. De
fato, a virtude exige esforço, energia, o vício não.
Nascemos
com uma natureza enferma. Nossos genitores nos transmitiram um mal
hereditário: o micróbio de uma profunda astenia espiritual.
Alguma
luz brilha nas trevas daquela noite escura. O piedoso Abel (cf. Gn 4,
4) e o bom Noé que encontrou graça aos olhos do Senhor (cf. Gn 6, 8). O
patriarca Henoc que andou com Deus e Deus o arrebatou (cf. Gn 5, 24) por
sua piedade (cf. Eclo 44, 16).
O
Apóstolo dos Gentios analisa os desvios morais da Humanidade entregue
ao pecado (cf. Rm 1, 18-32) que provoca a ira do Senhor e Deus (cf. Rm
1, 18). Observa que a terra está cheia de violência por causa dos homens
(cf. Gn 6, 13): destruição brutal, estupros, violação da justiça, atos
incontidos. Lamec mata um homem por uma ferida (cf. Gn 4, 23); Simeão e
Levi vingam a irmã Dinah violentada, com cutelos (cf. Gn 34) que seu pai
Jacó chamou instrumentos de violência (cf. Gn 49, 5). Massacres,
perseguições, matanças de inocentes como a do ímpio rei Acab que
assassina Nabot para apoderar-se de sua vinha (cf. 1Rs 21, 8-16).
Os
profetas lamentam o estado de violência em que o povo mergulhou (cf. Am
3,10; Jr 6, 7; 20, 8; Is 60, 18), e apelam a Javé que é o único a poder
remediar esse estado de injustiça (cf, Hab 1, 3).
Progressivamente
o Senhor vai educando o homem e reconduzindo-o à razão, visto que, a
violência obscurece a razão. É a força de quem não tem razão. Por isso
prescreve-lhe a lei de Talião (cf. Ex 21, 24) que é um grande progresso
em relação aos tempos de Lamec (cf. Gn 4, 15.24).
O
castigo de um pecado coletivo (cf. Gn 11, 1-8) encontra sua resposta na
obra do Redentor (cf. Jo 11, 52) e no milagre de Pentecostes (cf. At 2,
5-12).
Deus
tem caminhos misteriosos que escapam à compreensão humana (cf. Is 55,
8). Uma coisa é certa, quis que o ser humano fosse livre mesmo quando
abusa de sua liberdade e escolhe contra o seu Criador.
Longe de coagi-lo Deus espera que livremente o homem volte para Ele pelo conhecimento do amor (cf. CIC, n, 356).

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