Fonte: 247
O STF corre perigo
Marco Antonio Villa
O STF corre perigo
Marco Antonio Villa
No julgamento do mensalão o Supremo Tribunal Federal (STF) está decidindo a sua sorte. Mas não só: estará decidindo também a sorte da democracia brasileira. A Corte deve servir de exemplo não só para o restante do Poder Judiciário, mas para todo cidadão. O
que estamos assistindo, contudo, é a um triste espetáculo marcado pela
desorganização, pelo desrespeito entre seus membros, pela prolixidade
das intervenções dos juízes e por manobras jurídicas.
Diferentemente do que ocorreu
em 2007, quando do recebimento do Inquérito 2.245 – que se transformou
na Ação Penal 470 -,( mensalão) o presidente Carlos Ayres Britto deixou
de organizar reuniões administrativas preparatórias, que facilitariam o
bom andamento dos trabalhos. Assim, tudo passou a ser decidido no calor
da hora, sem que tenha havido um planejamento minimamente aceitável.
Essa insegurança transformou o processo numa arena de disputa política e
aumentou, desnecessariamente, a temperatura dos debates.
Desde o primeiro dia, quando
toda uma sessão do Supremo foi ocupada por uma simples questão de ordem,
já se sinalizou que o julgamento seria tumultuado. Isso
porque não interessava aos petistas que fosse tomada uma decisão sobre o
processo ainda neste ano. Tudo porque haverá eleições municipais e o PT
teme que a condenação dos mensaleiros possa ter algum tipo de
influência no eleitorado mais politizado, principalmente nas grandes
cidades. São conhecidas as pressões contra os ministros do STF
lideradas por Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-presidente agiu de forma
indigna. Se estivesse no exercício do cargo, como bem disse o ministro
Celso de Mello, seria caso de abertura de um processo de impeachment.
A lentidão do julgamento
reforça ainda mais a péssima imagem do Judiciário. Quando o juiz não
consegue apresentar brevemente um simples voto, está sinalizando para o
grande público que é melhor evitar procurar aquela instância de poder. O desprezo pela Justiça enfraquece a consolidação da democracia.
Quando não se entende a linguagem dos juízes, também é um mau sinal. No
momento em que observa que um processo acaba se estendendo por anos e
anos – sempre havendo algum recurso postergando a decisão final – a
descrença toma conta do cidadão.
Os ministros mais antigos
deveriam dar o exemplo. Teriam de tomar a iniciativa de ordenar o
julgamento, diminuir a tensão entre os pares, possibilitar a apreciação
serena dos argumentos da acusação e da defesa, garantindo que a Corte
possa apreciar o processo e julgá-lo sem delongas. Afinal, se a Ação
Penal 470 ( O mensalão) tem enorme importância, o STF julga por ano 130
mil processos. E no ritmo em que está indo o julgamento é possível
estimar – fazendo uma média desde a apresentação de uma pequena parcela
do voto do ministro Joaquim Barbosa -, sendo otimista, que deverá
terminar no final de outubro.
Esse
julgamento pode abrir uma nova era na jovem democracia brasileira, tão
enfraquecida pelos sucessivos escândalos de corrupção. A
punição exemplar dos mensaleiros serviria como um sinal de alerta de
que a impunidade está com os dias contados. Não é possível considerarmos
absolutamente natural que a corrupção chegue até a antessala
presidencial. Que malotes de dinheiro público sejam instrumento
de “convencimento” político. Que uma campanha presidencial – como a de
Lula, em 2002 – seja paga com dinheiro de origem desconhecida e no
exterior, como foi revelado na CPMI dos Correios e reafirmado na Ação
Penal 470.
A estratégia do PT é tentar emparedar o tribunal. Basta observar a ofensiva na internet montada para pressionar os ministros. O
PT tem uma vertente que o aproxima dos regimes ditatoriais e,
consequentemente, tem enorme dificuldade de conviver com qualquer
discurso que se oponha às suas práticas. Considera o
equilíbrio e o respeito entre os três Poderes um resquício do que chama
de democracia burguesa. Se o STF não condenar o núcleo político da
“sofisticada organização criminosa”, como bem definiu a
Procuradoria-Geral da República, e desviar as punições para os réus
considerados politicamente pouco relevantes, estará reforçando essa
linha política.
Porém, como no Brasil o que é
ruim sempre pode piorar, com as duas aposentadorias previstas – dos
ministros Cezar Peluso, em setembro, e Ayres Britto, em novembro - o STF vai caminhar para ser uma Corte petista.
Mais ainda porque pode ocorrer, por sua própria iniciativa, a
aposentadoria do ministro Celso de Mello. Haverá, portanto, mais três
ministros de extrema confiança do partido – em sã consciência, ninguém
imagina que serão designados ministros que tenham um percurso
profissional distante do lulopetismo. Porque desta vez a liderança
petista deve escolher com muito cuidado os indicados para a Suprema
Corte. Quer evitar “traição”, que é a forma como denomina o juiz que
deseja votar segundo a sua consciência, e não como delegado do partido.
Em outras palavras, o STF corre perigo. E isso é inaceitável. Precisamos de uma Suprema Corte absolutamente independente. Se, como é sabido, cabe ao presidente da República a escolha dos ministros,
sua aprovação é prerrogativa do Senado. E aí mora um dos problemas. Os
senadores não sabatinam os indicados. A aprovação é considerada
automática. A sessão acaba se transformando numa homenagem aos
escolhidos, que antes da sabatina já são considerados nomeados.
Poderemos ter nas duas próximas décadas, independentemente de que partido detenha o Poder Executivo, um controle petista do Estado brasileiro por intermédio do STF,
que poderá agir engessando as ações do presidente da República. Dessa
forma – e estamos trabalhando no terreno das hipóteses – o petismo
poderá assegurar o controle do Estado, independentemente da vontade dos
eleitores. E como estamos na América Latina, é bom não duvidar.

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